Khalil Hamra/AP
Khalil Hamra/AP

Irmandade Muçulmana afasta-se de ultrarradicais do Al-Nur

Vencedor nas eleições parlamentares, grupo islâmico nega aliança com salafistas

O Estado de S. Paulo,

02 de dezembro de 2011 | 23h42

CAIRO - A surpreendente votação do partido salafista Al-Nur – que teria 25% dos votos na eleição parlamentar egípcia, segundo informes não oficiais – levou o grupo islâmico Irmandade Muçulmana – que conquistou 40% dos votos, segundo os mesmos levantamentos –, a afastar a hipótese de uma aliança dos grupos para controlar o Parlamento. A Comissão Eleitoral anunciou nesta sexta-feira, 2, que a primeira das três etapas da votação teve participação de 62%.

 

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A declaração da Irmandade Muçulmana serviria para acalmar liberais egípcios e governos ocidentais quanto à participação no governo dos salafistas, considerados "ultrarradicais". Também reflete as dificuldades da Irmandade, representada pelo Partido Liberdade e Justiça, para manter unidos seus partidários islâmicos mais ardorosos nas ruas, sem provocar uma violenta reação interna ou externa.

 

Animado com o sucesso, o partido da Irmandade afirma que o Parlamento deveria tentar tirar o poder dos governantes militares interinos do país para nomear um novo primeiro-ministro – uma medida que os generais rejeitam.

 

'Desde os faraós'

 

O diretor da Comissão Eleitoral, Abdel-Mooaez Ibrahim, anunciou hoje que 62% dos eleitores participaram da primeira das três fases das eleições parlamentares do Egito, realizada segunda e terça-feira. "Foi o maior comparecimento desde o tempo dos faraós", disse Ibrahim, acrescentando que essa porcentagem corresponde a 13 milhões de eleitores.

 

O ex-presidente americano Jimmy Carter disse também nesta sexta que os egípcios "deveriam ficar orgulhosos" com as eleições – as primeiras desde a deposição do presidente Hosni Mubarak, em fevereiro, e as primeiras livres desde que os militares acabaram com a monarquia no país, em 1952.

 

Monitores do Centro Carter visitaram mais de 300 centros de votação e fizeram algumas observações para melhorar o andamento das outras fases.

 

A comissão ainda não divulgou o resultado oficial, mas sondagens indicam que o braço político do grupo Irmandade Muçulmana deve obter a maioria dos votos, seguido pelo partido salafista Al-Nur (islâmico ultraconservador) e uma coalizão de partidos liberais, o Bloco Egípcio.

 

Liberais

 

Na quinta-feira o braço político da Irmandade reiterou, como fez durante toda a campanha, que espera formar um governo de unidade com os partidos mais liberais. Segundo o Partido Liberdade e Justiça, "as eleições muito provavelmente levarão a um Parlamento equilibrado que reflita os vários componentes do público egípcio". No entanto, os egípcios liberais estão cada vez mais temerosos de que isso não ocorra – eles ficaram surpresos com o inesperado sucesso dos salafistas.

 

Em contraposição à ênfase na tolerância e no pluralismo, dada pela Irmandade durante a campanha, os salafistas falam em agir rapidamente para aplicar o código religioso islâmico em questões como bancos, álcool, vestuário feminino ou entretenimento.

 

Flores

 

Muitos candidatos salafistas recusaram-se a apertar a mão de mulheres e em entrevistas exigiram que as jornalistas usassem um véu. A lei egípcia exige que todos os partidos indiquem pelo menos uma mulher em cada lista de candidatos, mas como muitos salafistas rejeitam mulheres em cargos de liderança, eles colocaram os nomes de suas candidatas em último lugar em cada lista. Frequentemente, os cartazes de propaganda das candidatas mostravam flores em lugar de seus rostos.

 

Os especialistas atribuíram o sucesso dos salafistas em parte à sua organização. O termo salafista indica os muçulmanos que procuram emular os companheiros do profeta Maomé em sua interpretação e prática do Islã.

 

Os salafistas prosperaram durante anos no Egito, mas sob o governo Mubarak a maioria se afastou da política por acreditar que a lei vem de Deus e não do homem. Mas depois que a queda do presidente abriu a possibilidade de uma mudança democrática, alguns ultraconservadores começaram a afirmar que, se obtivessem algum cargo, procurariam levar a lei de Deus ao Parlamento. "E quando realmente entraram para a disputa política, montaram uma rede bem organizada de 2 milhões a 4 milhões de egípcios", disse Shadi Hamid, um pesquisador do Brookings Institution, em Doha, Catar. Por outro lado, acredita-se que a Irmandade Muçulmana tenha cerca de 1 milhão de membros – mais de 600 mil homens e cerca de 400 mil mulheres, segundo Hamid.

 

"Os salafistas foram subestimados desde o início, pois é difícil imaginar como um sujeito de barba longa e ideias agressivas poderia realmente conseguir tanto apoio", disse. "Mas as eleições dizem respeito a organização e potencial humano, e eles têm um núcleo de partidários muito mobilizado", acrescentou.

 

Com AP e NYT

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