Irmandade pede voto em resposta a 'golpe'

Grupo islâmico do Egito evita protestos e diz que reação aos militares será nas urnas

CAIRO , O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2012 | 03h03

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para hoje e amanhã, o Egito voltou a viver um clima de incerteza política. Ontem, os militares dissolveram oficialmente o Parlamento e a Irmandade Muçulmana pediu aos eleitores que compareçam às urnas e votem em Mohamed Morsi, candidato do grupo, em detrimento de Ahmed Shafiq, ex-premiê de Hosni Mubarak, ditador deposto no ano passado.

De acordo com membros da Irmandade Muçulmana, em vez de protestos em massa, o momento é de canalizar todos os esforços e convocar a população para votar. "É hora de isolar os representantes do antigo regime por meio do voto", disse o grupo islâmico em um comunicado. "Temos de dizer 'não' aos perdedores, aos assassinos e aos criminosos", disse Morsi.

Ao evitar convocar o povo às ruas, a Irmandade Muçulmana estaria preocupada em não dar motivos jurídicos para a anulação de sua candidatura presidencial. Com isso, poucas centenas de pessoas, ligadas a outros grupos islâmicos ou de orientação laica, reuniram-se ontem na Praça Tahrir e em outros pontos tradicionais de manifestações em todo o país.

Campanha. Ontem, cerca de 500 pessoas estiveram na Praça Tahrir em um protesto batizado de "Não ao Golpe Militar", em que cartazes de Shafiq foram rasgados. Muçulmanos salafistas também participaram do protesto com gritos de "abaixo a ditadura militar".

A campanha de Shafiq, candidato ligado aos militares e a Mubarak, teve como base a promessa de manter a estabilidade do país diante da ameaça ao secularismo representado pela Irmandade Muçulmana. Ontem, Morsi tentou neutralizar esse argumento e garantiu que trabalhará de perto com o Exército. "Como presidente, eles estarão no meu coração e terão minha total atenção", disse.

A Irmandade Muçulmana, que era perseguida pelo regime de Mubarak, teve uma ascensão rápida após a queda da ditadura. Nas eleições legislativas, em novembro e dezembro, obteve uma expressiva votação e tornou-se a principal força do Parlamento.

Dissolução. Na quinta-feira, contudo, a Suprema Corte do Egito declarou que parte do processo eleitoral foi inconstitucional e dissolveu o Parlamento, esvaziando o poder da Irmandade Muçulmana, que agora tenta passar a imagem de ser o último foco de resistência contra o antigo regime.

Outra decisão tomada pelo tribunal foi a de manter Shafiq na disputa - a lei que proibia que funcionários do alto escalão de Mubarak disputassem cargos públicos também foi considerada inconstitucional.

A dissolução do Legislativo foi oficializada ontem pelos militares, que ocuparam a Assembleia. Cerca de 200 policiais impediram a entrada dos deputados. Grupos opositores qualificaram a decisão como "golpe de Estado" e pediram a volta do espírito revolucionário para manter a democracia no país. Alguns compararam a situação à da Argélia, em 1992, quando o Exército cancelou uma eleição que havia sido vencida por um partido islâmico.

Segundo analistas, no entanto, ainda é cedo para determinar as consequências da dissolução do Parlamento na corrida presidencial. Alguns afirmam que a decisão favorece Morsi e a Irmandade Muçulmana, que poderiam ser vistos como a única opção ao governo militar. Outros acreditam que ela pode beneficiar Shafiq, que é o preferido do Exército e considerado a única esperança de manter um Estado secular no Egito.

De acordo com funcionários do governo, a segurança será bastante reforçada em todos os locais de votação do Egito. Ao todo, 20 mil policiais e 200 mil soldados terão a missão de evitar que a violência se espalhe nos dois dias de votação - o contingente é o dobro do que foi destacado para a segurança dos locais de votação no primeiro turno das eleições presidenciais, em maio.

Segurança. Segundo o jornal Al-Ahram, ligado ao governo, fontes do Judiciário informaram que os militares manterão o controle sobre o Legislativo e as finanças do país até que um novo Parlamento seja eleito e uma nova Constituição seja promulgada.

O comando militar analisa ainda a possibilidade de indicar uma comissão para elaborar o esboço da nova Carta - a função estava nas mãos da Irmandade Muçulmana antes de o Parlamento ser dissolvido.

Diante dos rumores de boicote ao processo eleitoral por parte de alguns grupos políticos, a junta militar afirmou ontem que "tratará com firmeza" qualquer um que tente impedir que os cidadãos votem no fim de semana. / REUTERS, AFP e AP

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