Irmandade promete não lutar como na Argélia

Grupo islâmico diz que manterá batalha legal e popular para garantir seus direitos

CAIRO, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2012 | 03h07

Os generais do Egito estabeleceram regras políticas que podem manter o Exército no poder durante anos, alertou ontem um dos principais opositores islâmicos dos militares, mas ele acrescentou que a Irmandade Muçulmana não vai lançar-se à luta armada como fez na Argélia, levando o país a uma sangrenta guerra civil.

Saad al-Katatni, porta-voz do Parlamento eleito dissolvido pela junta militar na semana passada, disse à Reuters que os opositores do governo militar no Egito não têm armas, apenas meios "legais e populares" à sua disposição.

"Aquilo que ocorreu na Argélia não pode se repetir no Egito", disse Katatni, rejeitando as comparações com o conflito que eclodiu 20 anos atrás quando um governo defendido pelo Exército impediu outra ascensão do grupo islâmico ao poder por meio das urnas. Pelo menos 150 mil argelinos foram mortos nos anos 90.

"O povo egípcio é diferente, os egípcios não estão armados", disse Katatni, microbiólogo de 61 anos, na primeira entrevista que concedeu após a dissolução da legislatura dominada pelos islâmicos, em razão da decisão de um tribunal que considerou inconstitucionais os procedimentos eleitorais.

"Estamos travando uma batalha legal dentro do establishment, e também uma batalha popular nas ruas", disse ele. "Esse é o limite. Enxergo a continuidade da luta dentro desses moldes." Ele exigiu que o Exército reconheça a democracia, mas também ofereceu palavras conciliatórias: "O Exército merecia gratidão por ter deposto Mubarak e evitado um derramamento de sangue ainda maior".

As mais recentes reviravoltas na turbulenta transição do Egito após o governo de Hosni Mubarak mergulharam o país num novo período de instabilidade política justamente no momento em que os egípcios esperavam a eleição de um novo presidente, marcando o início de uma nova era.

Em vez disso, os generais e a Irmandade parecem estar em extremos opostos de uma disputa pelo poder definida em termos ainda mais dramáticos. Mas a perspectiva de confrontos violentos parece distante, ao menos por enquanto.

Islâmicos veteranos há muito dizem que o flerte do Egito com a militância armada nos anos 80 e 90 - atos violentos liderados por grupos salafistas de linha dura, e não pela Irmandade - enfraqueceu a ideia de que grandes realizações possam ser alcançadas por meio da violência.

Faz décadas que a Irmandade renunciou à violência como meio para atingir seus fins, embora grupos nascidos de um movimento fundado no Egito em 1928 ainda empreguem a violência - principalmente o palestino Hamas em sua luta contra Israel - e a Irmandade Muçulmana da Síria faça parte de uma oposição que pegou em armas nos últimos meses.

Além de ordenar a dissolução do Parlamento, o conselho militar adotou várias outras medidas que redefiniram os termos da transição do Egito e do fim do governo militar, prejudicando a Irmandade e reforçando o poder dos generais. / REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.