Irmandade quer um estado democrático, mas religioso

As eleições da semana passada no Egito indicam o que já estava previsto: a Irmandade Muçulmana somada ao Al-Nur, partido salafista (radical islâmico), terão alcançado facilmente mais da metade das cadeiras no Parlamento, quando todas as províncias do país tiverem terminado de votar, em janeiro. À medida que se prepara para a disputa pelo poder com a junta militar, a Irmandade Muçulmana estuda os prós e os contras de uma coalizão islâmica. É provável que ela tente outro caminho: uma aliança muito mais ampla, envolvendo os partidos liberais, que emergem como a segunda força política na democracia egípcia.

CAIRO, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h03

A principal tarefa do Parlamento é redigir uma Constituição para o Egito democrático, depois de seis décadas de governos militares. O Artigo 2.º da Constituição, mantido por referendo realizado em março, afirma que todas as leis emanam da sharia, o código islâmico. O Al-Nur quer aprofundar essa islamização, introduzindo, ainda que gradualmente, a proibição do álcool, a obrigação do uso do véu, a eliminação dos juros, e assim por diante. A Irmandade Muçulmana, embora tenha a mesma ideologia, está mais preocupada com a economia e os problemas sociais.

Os islâmicos têm buscado um meio-termo aceitável tanto para os liberais quanto para a minoria cristã. A palavra-chave, aqui, é "madnia", que em árabe significa "civil". Os islâmicos propõem um Estado "civil", em contraposição a um Estado "secular", ou "almania", em árabe. Ou seja, o Estado democrático seria por princípio religioso, mas não imporia o cumprimento rígido dos preceitos islâmicos a todos os cidadãos. O interessante é que a palavra "civil" contrapõe-se também ao poder militar, "askaria". Este é o conflito mais urgente para os egípcios, que fez eclodir a segunda onda da revolução, ofuscando as eleições.

O experimento democrático egípcio está sendo considerado um sucesso pelos analistas. "As eleições foram justas", declarou ao Estado Ahmed Samih, diretor do Instituto Andaluz, que monitora a votação. "Apesar de as autoridades não terem sido capazes de coibir a propaganda nos locais de votação, proibida por lei."

Samih calcula que a ação dos cabos eleitorais tenha modificado o voto de 20% a 25% dos eleitores, muitos deles com dificuldade de preencher a cédula. A panfletagem foi encabeçada pelos islâmicos, mais numerosos e organizados que os liberais. / L.S.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.