Irmandade sai na frente em eleição egípcia, confirma comissão

Ex-engenheiro da Nasa, pertencente a grupo fundamentalista islâmico, disputará 2º turno com ex-premiê de Mubarak

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2012 | 03h07

A Irmandade Muçulmana saiu na frente no primeiro turno da eleição presidencial no Egito. O ex-engenheiro da Nasa Mohamed Morsi, do Partido Liberdade e Justiça, pertencente à Irmandade, obteve 24,77% dos votos válidos, seguido de perto por Ahmed Shafiq, ex-primeiro-ministro do ditador depostoHosni Mubarak, que ficou com 23,66%.

A diferença entre os dois foi de apenas 260 mil votos - 5,76 milhões para Morsi e 5,5 milhões para Shafiq. Em terceiro, com 20,70%, veio o nacionalista Hamdeen Sabahi, que cresceu durante a campanha evocando a imagem do coronel Gamal Nasser, líder do movimento que depôs o rei Faruq em 1952 e deu início ao ciclo de governos militares encerrado com a queda de Mubarak em fevereiro do ano passado.

Dos 50 milhões de eleitores, apenas 46% compareceram, numa expressão do desalento que ainda perdura entre os egípcios, depois de décadas de eleições presidenciais com cartas marcadas - e das incertezas sobre as reais prerrogativas do primeiro presidente egípcio eleito democraticamente.

As negociações sobre uma nova Constituição, que definirá as relações entre o presidente civil e o comando das Forças Armadas, e entre o Executivo e o Legislativo, foram interrompidas em abril por falta de acordo entre conservadores islâmicos e liberais. Nas eleições parlamentares realizadas entre novembro e janeiro, a Irmandade Muçulmana e o partido salafista (ultraconservador) Al-Nur obtiveram dois terços das cadeiras tanto na Câmara quanto no Senado.

A própria candidatura de Shafiq, como Mubarak um ex-oficial da Força Aérea, corre risco de ser impugnada. Uma lei aprovada pelo Parlamento dominado pelos conservadores muçulmanos impede ex-integrantes do governo deposto de concorrer à presidência. A Comissão Eleitoral, dirigida por Faruq Sultan, ele mesmo nomeado por Mubarak, permitiu que a candidatura de Shafiq seguisse adiante, enquanto o pedido não é julgado pelo Supremo Tribunal Constitucional (STC). "Quando o STC tomar sua decisão, a lei será cumprida", disse Sultan, um pouco enigmaticamente, ao anunciar os resultados. Ele é membro do STC emprestado à Comissão Eleitoral. Os egípcios ainda têm um longo caminho a percorrer, até desembaraçar-se do seu passado recente.

A impugnação de Shafiq poderia levar à realização de novas eleições. Alheios à insegurança jurídica, os dois primeiros colocados lançaram-se à curta campanha para o segundo turno, previsto para os dias 16 e 17.

Na disputa pelo grande contingente de eleitores situados entre os dois extremos que eles representam, tanto Morsi quanto Shafiq moderaram seus discursos. O ex-primeiro-ministro estampou com orgulho na campanha ao primeiro turno suas origens na ditadura militar de Mubarak, que ficou no poder durante 30 anos. Morsi, por sua vez, em comícios nos redutos mais conservadores, defendeu abertamente a adoção da Sharia, o código islâmico, num país em que 10% da população é cristã, e uma fatia expressiva dos muçulmanos é liberal e defende a separação entre política e religião.

Ambos agora defendem a união nacional e a tomada de decisões com base no consenso, de olho nos 12,4 milhões de eleitores que não votaram neles, e que decidirão a eleição dentro de menos de três semanas.

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