Irmão de atirador de Toulouse é indiciado como cúmplice

Em bairro onde nasceu terrorista, moradores dizem que islamofobia na França vai aumentar após atentados

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

26 Março 2012 | 03h04

O irmão mais velho do terrorista Mohamed Merah, autor de três atentados e sete homicídios em Toulouse e Montauban, no sul da França, na semana passada, foi indiciado ontem como cúmplice dos crimes.

O anúncio foi feito pelo Ministério Público de Paris após Abdelkader Merah permanecer 96 horas em prisão temporária, período no qual a polícia investigava seu grau de conhecimento sobre os planos do irmão. A hipótese de que Merah contou com o apoio de pelo menos um outro jihadista tende a ampliar a pressão sobre a comunidade muçulmana.

De acordo com os procuradores do caso, Abdelkader, de 29 anos, teria cometido crimes de cumplicidade em assassinatos, formação de quadrilha para preparação de atos terroristas e roubo da moto usada nos atentados. Em comunicado, o procurador do caso, François Molins, informou ter reunido "indícios graves ou concordantes que tornam verossímil sua participação como cúmplice dos crimes, em vínculo com atos terroristas". Diante do indiciamento, Anne-Sophie Laguens, advogada de Abdelkader, negou as notícias de que seu cliente tivesse dito ter "orgulho" dos atos de seu irmão.

Enquanto as investigações avançam, em diversas cidades da França foram realizadas ontem marchas da "República unida contra o racismo, o antissemitismo e o terrorismo" - a maior delas na Praça da Bastilha, em Paris. Além de prestar solidariedade às famílias de vítimas, as manifestações buscaram lutar contra a emergência de um clima de rivalidade entre franceses com família originária do país e imigrantes.

Em Toulouse, o aumento da rejeição aos descendentes de árabes nascidos na França é uma das preocupações da comunidade muçulmana após os crimes.

A reportagem do Estado esteve no distrito de Mirail, na periferia de Toulouse, onde Merah nasceu e onde vivem membros de sua família. A comunidade muçulmana de Toulouse se mostra preocupada com o risco de aumento da xenofobia, que estaria na origem dos atentados.

"Esse jovem é apenas um louco. Todas as nacionalidades e religiões têm pessoas boas e más. O Islã não diz nada que autorize a violência", disse o operário tunisiano Said M., de 34 anos, há um ano vivendo na cidade.

Camal S., pedreiro de 36 anos também vindo do Marrocos, crê que sua comunidade vai enfrentar as consequências do extremismo de Merah, mas disse que vai fazer sua parte para mostrar que "os muçulmanos não são iguais a esse rapaz". "Estamos aqui para trabalhar e viver, não para fazer besteiras", reiterou. "Mas vai haver uma reação muito negativa contra nós. Nós vamos pagar a conta."

Radicado na França há 24 anos, Assan Ben Moha, de 45 anos, lamentou as mortes, incluindo a de Merah, e disse temer que o radicalismo do jovem francês de origem argelina aumente a discriminação contra os imigrantes árabes, o que provocaria por sua vez mais radicalização. "Vamos viver como no pós-11 de Setembro. A comunidade islâmica sofrerá as consequências, em especial nesse período eleitoral", disse.

"Os fundamentalistas apostam tudo no recrutamento de jovens nas comunidades pobres da França", explicou. "Prepare-se: haverá outros para substituí-lo. Esses jovens nem falam o árabe direito, mas já se mostram radicais. Eles são frágeis, fáceis de manipular."

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