Photo/Alberto Pezzali, File)
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Irmão de Boris Johnson se demite por discordar dele sobre o Brexit

Jo Johnson pede demissão de cargo de ministro alegando divergências irreconciliáveis entre a lealdade à família e o interesse nacional

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 09h35
Atualizado 05 de setembro de 2019 | 22h17

LONDRES - Alegando divergências irreconciliáveis entre a lealdade à família e o interesse nacional, Jo Johnson, irmão do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, pediu nesta quinta-feira, 5, demissão do cargo que ocupava no governo e de seu mandato como deputado do Reino Unido

No governo do irmão, ele ocupava o cargo de ministro de Negócios, Energia e Indústria Estratégica, uma nomeação polêmica feita por Johnson, por rumores de nepotismo. Antes, já havia passado por governos de David Cameron (ministro das Universidades e da Ciência) e de Theresa May (ministro dos Transportes).

A decisão de Jo Johnson deixou em choque o Partido Conservador e abalou o primeiro-ministro, que visitava uma academia de polícia em West Yorkshire. O anúncio ofuscou o evento que deveria marcar o início de uma campanha eleitoral do partido, à medida que o país parece caminhar cada vez mais para uma eleição. 

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“Foi uma honra representar (o círculo eleitoral de) Orpington durante nove anos e servir como secretário de Estado sob a liderança de três primeiros-ministros”, escreveu Jo Johnson em sua conta no Twitter. “É uma tensão impossível de resolver e é tempo para outros assumirem os meus lugares como deputado e secretário de Estado.”

Ele assinou: "#overandout".


Johnson, que definiu o irmão como um ministro brilhante e talentoso e um parlamentar fantástico, disse em seu discurso que nada abalaria sua convicção de separar o Reino Unido da União Europeia e preferia “morrer em uma trincheira” a pedir o adiamento do Brexit.

Após tirar a maioria de Johnson no Parlamento, a oposição conseguiu aprovar uma lei, na terça-feira, que obriga o governo a pedir um adiamento para o Brexit – previsto para 31 de outubro – se não conseguir um acordo com Bruxelas nas próximas semanas. 

A decisão de Jo foi anunciada em uma semana difícil para o premiê que, desde que assumiu o cargo, em julho, tem tentado domar o Partido Conservador com quem trava uma disputa aberta sobre uma estratégia para o Brexit. Johnson chegou ao poder alegando que os britânicos deixarão a UE, com ou sem acordo, em 31 de outubro. 

Na terça-feira, ele expulsou 21 parlamentares de seu partido por se recusarem a apoiar sua estratégia. Entre eles, o neto de Winston Churchill, seu ídolo, e dois ex-ministros. 

Segundo o jornal britânico The Guardian, o governo parece estar cada vez mais perdendo o controle do cronograma da saída, com Johnson incapaz de articular uma reação, caso os trabalhistas rejeitem novamente – como fizeram na terça-feira – a proposta de antecipação de eleições que será apresentada novamente na segunda-feira. Segundo o jornal, o discurso na academia, “desmedido e incoerente”, foi prova disso. 

A renúncia de Jo Johnson também deve dar munição ao Partido Trabalhista para mais ataques contra o governo. “Boris Johnson impôs uma ameaça que fez com que nem mesmo seu irmão confiasse nele”, disse a deputada trabalhista Angela Rayner. 

A demissão também ocorre em meio a várias renúncias de membros do Partido Conservador que integram o governo – todos citando divisões no partido. Caroline Spelman, ex-presidente da legenda que se rebelou contra o governo na quarta-feira, disse que não poderia continuar no Parlamento apoiando uma saída sem acordo tendo consciência sobre o que acontecerá aos empregos dos britânicos. 

Ex-banqueiro de investimentos e jornalista, Jo Johnson, de 43 anos, também havia se demitido do governo em novembro de 2018 por divergências com relação à condução da saída do Reino Unido da UE. 

Se o premiê enfrenta fortes divisões no país e no próprio partido sobre o Brexit, na sua família não é diferente. Mais novo dos quatro irmãos Johnson, Jo chegou a fazer campanha contra o Brexit (e, portanto, contra o irmão), mas mudou de ideia. Nas últimas semanas, porém, ele demonstrou diversas vezes insatisfação com a perspectiva de um Brexit sem acordo.

Em um perfil sobre a família publicado em julho, o jornal New York Times afirma que os Johnsons, diante da ascensão ao poder de Boris, passaram a adotar a abordagem de que o sangue é mais importante do que a convicção política. 

O jornal lembra, por exemplo, que a irmã, Rachel, de 53 anos, colunista, novelista e apresentadora de talk-show, concorreu, sem sucesso, às últimas eleições para o Parlamento Europeu em uma plataforma que defendia a permanência do Reino Unido no bloco. 

O patriarca, Stanley Johnson, é um europeísta de 78 anos que se opôs ao Brexit, mas passou a apoiá-lo ao lado do filho. Outro irmão, Leo, de 51 anos, apresentador da rádio BBC, não gosta de falar em público sobre suas divergências com o irmão premiê. Segundo o jornal, em privado, os debates sobre o Brexit têm causado todo tipo de dificuldade na família. Em público, porém, todos concordam que o melhor é apoiar o primeiro-ministro. 

Ainda nesta quinta-feira, Corbyn deu sinais de que rejeitará a proposta de Johnson para antecipar as eleições para o dia 15 de outubro. O primeiro-ministro chamou o líder da oposição de “covarde” por fugir da disputa. Os trabalhistas acreditam que a agressividade de Johnson seja uma provocação para levar o partido a votar da maneira que o governo deseja. / REUTERS, NYT, AFP e AP 

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