Lynsey Addario/The New York Times
Lynsey Addario/The New York Times

Irmão de Karzai é assassinado no Afeganistão

Morte de Ahmed Wali Karzai, líder da Província de Kandahar, pode abrir caminho para a volta da insurgência no sul no país, berço do Taleban

, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2011 | 00h00

KANDAHAR

Ahmed Wali Karzai, chefe do Conselho Provincial de Kandahar e irmão mais novo do presidente afegão, Hamid Karzai, foi morto ontem em casa por um de seus seguranças. Acusado de envolvimento no tráfico de drogas no sul do Afeganistão, de receber dinheiro de empresas privadas de segurança e, ao mesmo tempo, da inteligência americana, Ahmed era um controvertido, mas indispensável, aliado dos EUA.

Ele estava reunido em casa com líderes tribais e políticos, no centro de Kandahar, quando Sardar Mohammad, amigo de longa data, pediu para conversar com o chefe em particular, segundo duas testemunhas. Ahmed e Mohammad deixaram a sala. Pouco depois, ouviram-se três tiros.

Agha Lalai Destegeri, vice-chefe do Conselho Provincial de Kandahar, correu para a sala onde os dois discutiam. Encontrou Ahmed caído com um tiro na cabeça, outro no peito e um terceiro na mão. Ele tinha 48 anos. Os outros seguranças invadiram a casa e mataram Mohammad. O irmão de Karzai foi levado para o Hospital Mirwais, mas não sobreviveu. Sua morte expõe a fragilidade do governo central num momento em que as forças estrangeiras se preparam para entregar o controle da segurança do país aos afegãos.

Duas horas depois do crime, o presidente Karzai confirmou a morte do irmão em entrevista coletiva no palácio do governo ao lado do presidente da França, Nicolas Sarkozy. "Nessa manhã, meu irmão mais novo, Ahmed, foi martirizado em sua casa. Essa é a vida do povo afegão, essa tristeza está em todos os lares, em cada um de nós", disse, virando-se para Sarkozy. "Espero que nos perdoe por não falar com um sorriso no rosto hoje."

Comando. Karzai dependia da influência do meio-irmão para manter conexões com os que dividem o poder no sul: líderes tribais, autoridades, contrabandistas e insurgentes. Kandahar é o berço do Taleban e um dos principais focos da insurgência. Foi a primeira província dominada pelos radicais após a saída dos soviéticos, em 1989, e a última a se render ao controle das forças de coalizão lideradas pelos EUA.

O grupo assumiu a autoria do assassinato. Mas autoridades locais disseram não acreditar que o crime tenha sido planejado pelos insurgentes. A casa de Ahmed era o centro político de Kandahar, mais do que o gabinete do governador - e ele tinha muitos inimigos.

"Ahmed era o número 1 de Kandahar", disse Mir Wali Khan, ex-parlamentar da Província de Helmand, que estava presente na reunião. "A expectativa é a de que a segurança na província piore. As disputas entre as tribos ficarão mais fortes."

Mohammad chefiava um grupo de policiais responsáveis pela segurança da casa de Ahmed. "Durante anos Mohammad foi o homem de confiança de Karzai", disse Zalmai Ayoubi, porta-voz do governador da província, Tooryalai Wesa. O assassinato pode não ser suficiente para devolver o controle de Kandahar aos insurgentes, mas a expectativa é que ocorra uma disputa sobre quem assumirá o lugar deixado por Ahmed. / NYT e WP

PARA ENTENDER

Ahmed era um aliado dos EUA

Ahmed Wali Karzai havia se reaproximado secretamente dos EUA e já era considerado seu mais influente aliado no sul do Afeganistão. Militares e diplomatas acreditavam que ele deixara de lado interesses financeiros próprios para tornar-se um político. Viajava com os EUA para áreas dominadas pelos taleban e resolvia disputas locais.

Sua casa tornou-se o "centro gravitacional" de Kandahar. Em junho, 170 líderes tribais pediram ao presidente Karzai que apontasse Ahmed como governador da província.

 

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