Irmão de militante foi preso e torturado

Detido em Yinan, Chen Guangfu levou tapas na cara, socos nas costelas, cintadas e pisões nos pés por quase 24 horas

LINYI, CHINA , O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2012 | 03h03

Chen Guangfu sabia que os capangas que vigiavam a vila Dongshigu o procurariam em 27 de abril, quando o mundo soube que seu irmão mais novo, o ativista Chen Guangcheng, tinha escapado da prisão domiciliar em que era mantido havia 19 meses e estava refugiado na Embaixada dos Estados Unidos em Pequim. Eles chegaram por volta da meia-noite, pularam o muro da casa dele, arrombaram a porta e o arrastaram para um carro estacionado do lado de fora.

"Foi tudo muito rápido. Eles usaram uma peça de roupa para cobrir minha cabeça e me empurraram", disse o camponês ao Estado, em entrevista na casa em que Chen vivia.

Guangfu foi levado ao condado de Yinan, ao qual a vila pertence, e submetido a quase 24 horas de tortura. "Não me perguntaram nada. Eles só queriam se vingar." Seus pulsos foram algemados atrás das costas e presos no alto do espaldar da cadeira.

A tendência natural era se curvar, mas os guardas o obrigaram a ficar ereto. Depois, vieram tapas na cara, socos nas costelas, cintadas e pisões nos pés com os coturnos.

"Quando paravam, me perguntavam: 'Você sabe por que está aqui?' Eu respondia 'não' e começavam a me bater de novo." Guangfu voltou para casa na noite de 28 de abril, para descobrir que seu filho Chen Kegui, de 32 anos, estava desaparecido depois de ter se envolvido em uma briga com alguns dos homens que invadiram a casa da família - Kegui estava em outro cômodo quando seu pai foi levado pelos capangas.

Usando facas de cozinha, o sobrinho de Chen feriu três dos invasores e foi posteriormente acusado de tentativa de homicídio. Kegui está preso há quase três meses e ninguém de sua família conseguiu encontrá-lo. Vários advogados apresentaram-se para defendê-lo, mas foram impedidos pelo governo de viajar à Província de Shandong.

Defesa calada. As autoridades locais indicaram dois defensores públicos, Wang Haijun e Song Kuirong. A reportagem entrou em contato com ambos os advogados, mas nenhum deles quis falar sobre a situação de Kegui. Song desligou o telefone depois que o nome de seu cliente foi mencionado.

Guangfu encontrou-se somente uma vez e apenas por 15 minutos com Song, mas o advogado rejeitou discutir o caso ou a estratégia de defesa que pretende utilizar.

"Parece que em nosso país alguém pode invadir a casa de outro, saquear e bater nas pessoas e não ser responsabilizado por isso. Mas a defesa da própria vida e propriedade sob ataque é classificada de 'tentativa de homicídio'", escreveu Chen em artigo publicado no jornal Washington Post no dia 21 de junho sob o título A Justiça chinesa vai resgatar meu sobrinho detido?.

O ativista defende a imediata libertação do sobrinho, que teria agido em legítima defesa. Caso isso não ocorra, ele pede que seu julgamento ocorra em outra jurisdição e não no condado de Yinan, onde estão as autoridades que perseguiram a família nos últimos sete anos. / C.T.

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