Daniele Volpe/The New York Times
Daniele Volpe/The New York Times

Irmão de pastor acolhe cerca de 200 migrantes expulsos de igreja no México

Ministro evangélico em uma cidade fronteiriça, Victor Barrientos deixou dezenas de famílias de migrantes morar em sua igreja; quando ele expulsou a maioria deles, seu irmão, do outro lado da rua, os convidou para sua casa

Natalie Kitroeff, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2021 | 20h00

MATAMOROS, México - Quando o número de migrantes aumentou na cidade fronteiriça de Matamoros, no México, um pastor local perdeu a paciência.

O pastor, Víctor Barrientos, já havia convidado dezenas de requerentes de asilo para morar em sua igreja, acreditando que era seu dever religioso como cristão evangélico. Mas de repente, parecia-lhe, havia gente demais. Seus convidados eram bagunceiros, ele disse, e "fora de controle" - e então, assim que a terceira onda da pandemia chegou, eles começaram a pegar covid-19.

Então, um dia no final de junho, o pastor expulsou quase 200 pessoas - a algumas famílias foi permitido ficar.

"Não estou recebendo ajuda do governo estadual ou federal", disse Barrientos. "Esta é apenas uma igreja, não um lugar para abrigar pessoas."

Sem ter para onde ir, os migrantes atravessaram a rua e encontraram abrigo com a única pessoa que os aceitaria - o irmão do pastor, Joel, que trabalha como técnico de um provedor de internet. Ele espremeu tantas pessoas quanto pode em sua casa, de um único quarto.

Joel e sua esposa mudaram a maior parte de seus pertences para o quarto para abrir espaço para os migrantes, e agora dormem no chão. Ele permitiu que os estrangeiros que não conseguiram encontrar espaço dentro de casa armassem barracas no telhado.

"Eu não sei o que aconteceu com ele", disse Joel Barrientos, olhando para a igreja de seu irmão.

Por muito tempo, Matamoros foi apenas um breve ponto de parada para migrantes no caminho para o norte, conhecido por ser uma região violenta, a ser atravessada o mais rápido possível. Mas depois que o ex-presidente americano Donald Trump forçou as pessoas a ficarem no México, enquanto aguardavam a avaliação do status de refugiado, a cidade se tornou um lugar onde os migrantes esperam por um longo prazo.

Depois que o presidente Joe Biden começou a permitir que os requerentes de asilo cruzassem a fronteira, um acampamento de migrantes em Matamoros - em frente a Brownsville, Texas - foi fechado. Mas as pessoas continuaram a vir, e se depararam com uma porta fechada na fronteira sobrecarregada.

As melhores estimativas sugerem que existem muitas centenas, senão milhares, de migrantes ainda escondidos na cidade e que recebem pouca ajuda das autoridades mexicanas.

Em vez disso, ao lado de uma grande quantidade de organizações sem fins lucrativos que oferecem assistência humanitária, os residentes de Matamoros - como outros moradores de cidades mexicanas - muitas vezes têm ajudado, permitindo que os migrantes fiquem em varandas ou gramados, transformando igrejas em campos de refugiados improvisados  e, pelo menos em um caso, começando um abrigo em uma casa abandonada.

À medida que a espera dos migrantes na cidade se estende, a generosidade de alguns, antes abundante, está se esgotando.

Víctor Barrientos, o pastor de 50 anos, disse que deu as boas-vindas aos migrantes em sua igreja em 2014, quando crianças centro-americanas começaram a aparecer em massa na fronteira. Na época do Natal, "compramos presentes para as crianças", disse ele.

Alguns anos depois, enquanto grandes caravanas de migrantes seguiam para o norte, ele encontrou famílias inteiras dormindo do lado de fora da ponte que levava a Brownsville. O número de pessoas que permaneciam dentro de sua igreja logo cresceram para três dígitos.

"Vou ser sincera, ele me tratou lindamente", disse Iris Romero Acosta, uma migrante hondurenha que conheceu o pastor em 2019, quando morava nas ruas de Matamoros. "Ele nos trouxe comida e nos deu abrigo."

Iris, de 51 anos, mudou-se para a igreja com sua filha e dois netos. O pastor, disse ela, era uma presença de alegria, convidando uma banda Mariachi para tocar no Dia das Mães e comprando bolo para comemorar aniversários.

"Ele cuidou bem de nós", disse ela. "Ele era realmente atencioso."

Como o pastor viajou para fora de Matamoros e, em seguida, concorreu a prefeito da cidade neste ano, ele deixou a igreja aos cuidados de seu irmão Joel Barrientos, de 49 anos. À medida que mais pessoas começaram a chegar na cidade, o irmão e sua esposa, Gabriela Violante, deixaram os refugiados no local passarem dos 200.

As filas para o banheiro ficaram tão longas que as mulheres começaram a entrar só para reservar uma vaga. O chão estava coberto de famílias dormindo de costas uma para a outra. As pessoas tiveram erupções na pele, resfriados e, por fim, covid-19.

Quando o pastor voltou para a igreja em um domingo de abril, ele disse que ficou chocado com o que encontrou. As geladeiras estavam "cheias de insetos" e "ninguém usava máscaras", lembrou ele.

Ele fez com que todos passassem por testes de coronavírus e, depois que os resultados positivos começaram a chegar, o pastor deu um basta. Ele deixou um pequeno grupo ficar, mas todos os outros precisavam sair.

"Não posso resolver a vida de todos para eles", disse.

Iris, que estava entre as pessoas que partiram, reconheceu que o lugar havia se tornado "sujo" com "fraldas espalhadas".

Ainda assim, ela acha difícil conciliar a imagem do mesmo homem que a tirou das ruas com aquele que a jogou no meio-fio. "Ele se tornou irreconhecível", disse. "O coração do meu pastor mudou."

A casa do irmão agora está cheia de esteiras onde as pessoas dormem ombro a ombro. Um banheiro extra foi construído em sua modesta entrada. O fogão parece estar sempre cozinhando alguma coisa.

Tantas pessoas armaram tendas no terreno que, recentemente, "o teto começou a cair", disse Joel Barrientos, rindo da memória. Ele construiu uma coluna no meio da sala de estar para suportar o peso.

Quando questionado por que ele acolheu tantos, ele falou de sua fé. "Amamos a obra do Senhor", disse ele. Seu irmão, disse ele, "mudou" em algum momento e agora "não ama os migrantes".

Sua esposa, Gabriela, é mais específica. "Ele pode falar sobre a Bíblia", disse ela sobre seu cunhado, "mas não a põe em prática".

Seus vizinhos reagiram com cautela ao fluxo de migrantes à sua porta. Quando chove, algumas pessoas deixam as famílias ficarem secas sob os telhados das garagens.

Um lojista local, Mario Alberto Palacios, começou a cobrar das famílias US$ 12 (cerca de R$ 66) por semana para montar barracas do lado de fora de sua loja de conveniência. Palacios também exige um pagamento de US$ 0,50 (R$ 2,74) a cada uso do banheiro. "Não estou cobrando pela eletricidade ou água", disse Palacios, defendendo as taxas.

Em um domingo recente, algumas das famílias de migrantes que moravam com Joel pausaram suas rotinas da tarde para ouvir o som de rock cristão ao vivo.

Dentro da igreja do pastor, a multidão estava sendo aquecida por uma banda cujo vocalista voltaria no dia seguinte para tocar na casa do irmão para seu próprio serviço, no qual vários amigos se revezavam para liderar as orações.

As famílias do lado de fora ficaram quietas enquanto ouviam o coro abafado; eles sabiam que não deviam ir além de um poste logo adiante, que marcava o local onde começava a terra do pastor.

"Mamãe", gritou uma garotinha, enquanto uma música sobre o amor de Deus era ouvido além das paredes da igreja. "Eu conheço essa aqui!".

Durante seu sermão sobre o valor da família, o pastor voltou sua atenção, brevemente, para a questão dos migrantes. Às vezes, ele disse ao seu rebanho, os migrantes não agem de forma adequada.

"Mas mesmo que os migrantes se comportem mal, Deus os protege", disse ele, sua voz quase se elevando a um grito.

"Deus abençoe nossos irmãos migrantes", disse o pastor, gesticulando em direção à porta aberta, onde dezenas de famílias estavam reunidas do lado de fora em tendas, mas não mais em suas terras. "Abençoe-os, abençoe-os."

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