Irritação e medo definem voto em Israel

Cansados de impasse político, israelenses vão às urnas na terça-feira motivados pela velha questão: segurança

Daniela Kresch, especial para O Estado de S. Paulo,

08 de fevereiro de 2009 | 09h39

Os israelenses vão às urnas na terça-feira para definir o futuro de um país tomado pela insegurança, pela incerteza e por uma indisfarçável irritação com os políticos. Os enormes cartazes espalhados pelas principais cidades parecem ser o único sinal de que os israelenses estão prestes a eleger o primeiro-ministro que, em tese, deverá assinar um histórico acordo que pode mudar o rumo do Oriente Médio.   Veja também:  Veja os principais candidatos a premiê de Israel  Conheça os principais partidos israelenses     Parte do ceticismo se deve à eterna divisão que marca a política israelense. Desde 1996, nenhum primeiro-ministro conseguiu concluir o mandato de quatro anos. Foram convocadas eleições nada menos que seis vezes - numa média de uma eleição a cada dois anos. De lá para cá, o índice de participação do eleitorado caiu a cada votação - de 79,3% em 1996 para 63,2% em 2006. A previsão é que, desta vez, fique abaixo dos 60%. Governos de coalizão formados por partidos com interesses díspares surgiram e viraram pó em questão de meses.   "Não se trata de indiferença e sim de irritação. Os eleitores não aguentam mais os políticos e suas promessas vazias", disse ao Estado a cientista política Tamar Herman, do Instituto Nacional para Democracia. "O mesmo fenômeno se viu nos Estados Unidos até o surgimento de um candidato como Barack Obama. Aí os eleitores se animaram e foram votar em massa."   Entre os que se dispõem a votar, a segurança de Israel foi o tema dominante da campanha eleitoral que termina hoje. O resultado do conflito com o grupo islâmico Hamas, que deixou 1.300 palestinos e 13 israelenses mortos, jogou para segundo plano a crise econômica que aumentou o desemprego e ameaça levar Israel a uma das maiores recessões de seus 60 de existência.   Os principais candidatos discordaram quanto ao sucesso - ou fracasso - da operação militar que devastou Gaza, mas não parece ter dado um golpe mortal no Hamas.   Desde que Israel anunciou um cessar-fogo unilateral no dia 17 (seguido de uma declaração de trégua também unilateral por parte do grupo radical), foguetes Kassam e Grad, além de granadas de morteiros, continuaram sendo lançados por extremistas palestinos de Gaza, colocando em dúvida a validade da ofensiva.   A discussão esconde a verdadeira questão que norteia a votação: quem tem mais cacife para lidar com as ameaças à segurança nacional? O candidato mais bem colocado nas pesquisas eleitorais, o direitista Binyamin "Bibi" Netanyahu, do partido de oposição Likud, garante que é ele. Segundo a última enquete publicada pelo jornal Yediot Ahronot, Bibi deve ficar com 27 das 120 cadeiras da Knesset (Parlamento) - o que lhe daria o direito de formar o próximo governo. O candidato liderou as pesquisas desde o começo da campanha e seu partido chegou a ter projeção de 30 cadeiras. Na reta final, passou a ser ameaçado de perto pela principal rival, a chanceler Tzipi Livni, do partido governista de centro Kadima (mais informações no quadro).   O Likud de Netanyahu prega linha dura no relacionamento com os palestinos e o mundo árabe em geral. Há tempos Bibi favorecia uma resposta contundente contra os ataques palestinos de Gaza ao sul de Israel. Ele também prega uma ação mais assertiva contra o programa nuclear do Irã.   Durante o conflito contra o Hamas, Netanyahu apoiou o primeiro-ministro Ehud Olmert, do Kadima, e o ministro da Defesa Ehud Barak (que também concorre, pelo Partido Trabalhista). Mas assim que o cessar-fogo foi anunciado, saiu a público afirmando que Israel calara seus canhões "cedo demais" diante da pressão da comunidade internacional, impressionada com as imagens das centenas de vítimas palestinas e da destruição generalizada em Gaza. A alegação encontrou eco entre os eleitores. Segundo pesquisa do jornal Haaretz, 41% dos israelenses estão certos de que a guerra fracassou em debilitar o Hamas (40% a consideraram um sucesso).   Resultado, o candidato do Likud subiu nas pesquisas, favorecido pela guinada dos eleitores à direita. O irônico é que muitos asseguram que a guerra começou por motivos eleitoreiros, para impulsionar justamente a morna candidatura de Tzipi. Ela passou a campanha inteira tentando provar aos céticos que, apesar da pouca experiência - e do fato de ser uma mulher num país que preza seus generais -, seria a melhor escolha para primeira-ministra. Sua inexperiência política (nunca ocupou um cargo executivo) foi usada intensamente contra ela por seus adversários na campanha mais pessoal da história de Israel.   Divisão   Os ataques pessoais a Tzipi foram endossados pelo candidato trabalhista Ehud Barak, que está em quarto lugar na pesquisa. Barak construiu uma campanha voltada para a experiência militar - algo que Tzipi também não tem -, na tentativa de convencer os eleitores de que ele é o melhor candidato ao cargo de premiê.   Mas, apesar do sucesso inicial, o Partido Trabalhista, que já levou ao poder nomes como David Ben Gurion, Golda Meir, Yitzhak Rabin e Shimon Peres, falhou em conseguir apoio popular, ficando atrás nas pesquisas do partido-surpresa dessa eleição - o Israel Beiteinu, do imigrante russo de ultradireita Avigdor Lieberman.   A proximidade da guerra em Gaza fez voltar com força total a velha divisão interna entre direita e esquerda em Israel. Em geral, os dois campos são definidos pela intenção ou não de fazer concessões territoriais aos palestinos e negociar com o mundo árabe em geral. Nas eleições de 2006, a questão econômica chegou a ser tão importante quanto a de segurança. O Partido Trabalhista sustentou que Israel poderia abrir mão de um alto orçamento para o Exército e investir mais no social. O líder trabalhista da época, o sindicalista Amir Peretz, abocanhou uma bela fatia do voto nacional.   Mas a guerra daquele ano contra o grupo xiita libanês Hezbollah, que deixou 1.200 libaneses e 150 israelenses mortos, fez ruir essa retórica. Peretz, que durante a guerra era ministro da Defesa, renunciou e sumiu do cenário político.   Assim, os israelenses vão às urnas em busca de uma segurança que as operações militares contra o Hamas e o Hezbollah não conseguiram dar. Vão depositar seu voto no candidato que pareça mais preparado para defender o país das ameaças que assombram uma população cada vez mais cética em relação aos políticos e à paz no Oriente Médio.

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