Isabelita Perón, entre exames psiquiátricos e pedido de asilo

A ex-presidente María Estela Martínez de Perón, mais conhecida pelo apelido de "Isabelita", estaria preparando seu pedido de asilo político na Espanha, país onde reside há 25 anos de forma ininterrupta.Ao mesmo tempo, seus advogados recorreriam ao fato de que ela é cidadã espanhola, já que além do último quarto de século que residiu em Madri, ela acumula outros 13 anos (entre 1960 e 1973), nos quais viveu na capital espanhola acompanhando seu marido, o ex-presidente Juan Domingo Perón, que estava no exílio. Desta forma, Isabelita reuniria argumentos para tentar evitar ser extraditada à Argentina.No país onde foi presidente por menos de dois anos, o juiz federal Héctor Acosta solicitou, na semana passada, sua captura internacional e a extradição por envolvimento em casos de terrorismo de Estado durante seu governo, entre 1974 e 1976. Em 1975, ela assinou decretos que determinavam o "aniquilamento" da subversão. A medida levou militares e policiais à uma onda de assassinatos clandestinos sem precedentes na história do país.Nesta segunda-feira, o juiz federal Norberto Oyarbide, que investiga os vínculos da ex-presidente com a extinta organização paramilitar "Tríplice A" - comandada pela eminência parda de seu governo, José López Rega - anunciou que nos próximos dias também pedirá a extradição de Isabelita.Oyarbide, nas últimas semanas, ordenou a detenção de diversas antigas lideranças da Tríplice A, organização acusada do assassinato de 900 pessoas entre 1973 e 1976, além de 1.500 atentados terroristas. O líder da organização, López Rega, havia sido o mordomo de Perón durante o exílio, além de ser o influente astrólogo da supersticiosa Isabelita. Na residência presidencial de Olivos López Rega realizava sessões sui generis de ocultismo. Ele deitava Isabelita sobre o caixão de Evita Perón (a segunda esposa do general, idolatrada pelas massas populares) para que a falecida "líder dos descamisados" passasse suas "energias" à pouco carismática Isabelita.Durante o primeiro ano de Isabelita no poder, López Rega foi a eminência parda do governo. Desde seu escritório no Ministério da Ação Social, em pleno centro portenho, ordenava que seus capangas assassinassem os opositores políticos. Os integrantes da Tríplice A foram absorvidos pelo sistema de repressão da Ditadura que derrubou Isabelita e implantou o regime militar mais cruel da história da América Latina."Mas, ela não sabia de nada". Esse é o argumento utilizado pelos assessores jurídicos de Isabelita, que sustentam que a ex-presidente não tinha idéia que os atos terroristas tinham origem dentro de seu próprio gabinete.Para evitar que seja extraditada para a Argentina, os assessores de Isabelita também estão preparando o cenário para alegar que a ex-presidente está psicologicamente alterada, afetada por alucinações e que possui problemas de saúde. Ao longo das últimas duas décadas e meia, Isabelita - nas poucas vezes que apareceu em público - fez questão de mostrar-se como uma mulher fraca, sem inteligência política, que nada sabia sobre as atividades ilegais de seus ministros.SimulaçãoDiversos analistas ressaltam que a viúva de Perón poderia estar preparando uma simulação tal como a protagonizada entre 1998 e 2000 pelo ex-ditador chileno general Augusto Pinochet, que, após ser detido em Londres, fingiu que estava senil para evitar ser extraditado para a Espanha.No entanto, a Justiça argentina tem a intenção firme de trazer Isabelita para Buenos Aires ainda este ano. Dias atrás, o presidente Néstor Kirchner deu o tom político desta mobilização judiciária, ao afirmar que "não haverá impunidade para pessoa alguma".O advogado Carlos Slepoy, representante em Madri de várias ONGs de defesa dos Direitos Humanos da Argentina, sustenta que nem a dupla nacionalidade nem seus problemas médicos seriam obstáculos sérios que impedissem que Isabelita fosse extraditada e enviada à Buenos Aires.A oposição critica o presidente Kirchner de tentar realizar um "circo" com a extradição de Isabelita, para distrair a população dos problemas do cotidiano. Os líderes opositores afirmam que o caso de Isabelita não passa de uma jogada de Kirchner para aumentar sua popularidade (Isabelita é uma das ex-presidentes mais impopulares da história da Argentina) de olho nas eleições presidenciais de outubro.Seu representante, Humberto Linares Fontaine, afirmou que o estado de saúde da ex-presidente "não é grave, mas está delicado".Segundo ele, é o estado normal de uma pessoa de 75 anos e da vida atribulada e tensa que teve. "Ela até teve que pedir licenças de saúde quando estava exercendo a presidência", explicou. Segundo Linares Fontaine, Isabelita possui problemas nervosos e de tiróide".O representante da ex-presidente sustenta que ela não conhecia os vínculos entre a organização paramilitar "Tríplice A": "ela não contava com informação própria. Não tinha culpa. Não tinha meios de encarregar-se do legado que o falecido presidente Perón lhe havia deixado".

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