Islã e democracia dialogam no Irã

Na consciência nacional, foi o xá Abbas quem fundou o Estado iraniano moderno no século 16

Elaheh Rostami-Povey *, THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

O xá Abbas I, quinto soberano Safávida do Irã, assumiu o poder em 1587. Sob sua regência, o país se tornou uma grande potência política, transformando o comércio e a diplomacia internacionais. Entretanto, seu legado vai além da ambição política e culmina numa visão clara e decisiva para a expressão e o desenvolvimento artísticos e culturais. O xá Abbas criou uma identidade nacional distinta ao misturar a identidade cultural ancestral do Irã com o Islã xiita. Um dado intrigante: isso ocorreu em paralelo ao desenvolvimento dos primeiros Estados-nação da Europa Ocidental.Hoje, o xá Abbas ocupa um lugar especial na consciência nacional, pois muitos enxergam nele o fundador do Estado iraniano moderno. Seus esforços para posicionar o Irã como centro comercial e artístico entre Oriente e Ocidente servem de inspiração para os políticos atuais. Abbas escolheu como sua capital a antiga cidade de Isfahan. Sob seu olhar, floresceu uma monumental arquitetura, assim como novos estilos de pintura e arte caligráfica. A praça Maidan-i Naqsh-i Jahan, com dois magníficos complexos de mesquitas, prosperou como centro de cultura e comércio.Como escreve Sheila Canby em Shah Abbas: The Remaking of Iran ("Xá Abbas: a reinvenção do Irã"), a praça "permitia a interação e as trocas comerciais entre os muitos grupos da diversa população, que incluía iranianos, armênios, georgianos, indianos e europeus, além de possibilitar participação de todos em festivais públicos e comemorações". Com a queda da Dinastia Safávida, o poder dos clérigos xiitas entrou em declínio. Entretanto, a ideia do islamismo xiita como escola moderna do pensamento muçulmano promovida pelo xá Abbas continuou fundamental para clérigos islâmicos posteriores. Sayyid Jamal al-Din Asadabadi Afghani, clérigo xiita iraniano, foi pioneiro do modernismo islâmico. Mohamed Abduh, clérigo sunita e pioneiro da reforma islâmica no Egito, conheceu Afghani no Cairo. Juntos, eles deram enorme contribuição ao pensamento islâmico moderno. Com base nessa escola de pensamento, a Revolução Islâmica de 1979 foi vista como uma poderosa alternativa à versão ocidental da modernidade. Ali Shariati, um dos muitos que contribuíram para a teoria do movimento, argumentou que a ideologia islâmica é compatível com o liberalismo, com o marxismo e com o pós-modernismo, e defendeu a possibilidade de interpretar e reinterpretar conceitos do Islã de acordo com diferentes épocas e lugares. Trinta anos depois da revolução, essas ideias se mostram populares entre sunitas e xiitas, não só no Irã como em toda a região. Desde a revolução, o Irã passou por muitas transformações. Nos primeiros anos, o processo de islamização do Estado e da sociedade foi motivo de um intenso debate entre esquerdistas, nacionalistas e muçulmanos. Mesmo assim, prevaleceu a repressão política.A guerra entre Irã e Iraque contribuiu para a consolidação do Estado forte e do poder nas mãos dos muçulmanos radicais. É importante destacar que o Taleban e o conservadorismo saudita jamais existiram no Irã. Desde seu início, a República Islâmica esteve envolvida na batalha entre o Islã conservador e o democrático. O processo de islamização tem raízes populares. Os líderes, que são de uma gama variada de figuras políticas diferentes com visões igualmente diversas, conquistaram o apoio da maioria da população por meio do processo eleitoral. Portanto, diferente da percepção equivocada do Ocidente, tanto o Estado quanto a sociedade no Irã são modernos, legítimos e baseados no diálogo entre aqueles que desejam preservar o Islã conservador tradicional e aqueles que desejam adotar o Islã democrático e moderno. As circunstâncias socioeconômicas e políticas alteraram constantemente a fronteira entre as versões conservadora e liberal-democrática do Islã. Hoje, a maioria da população apoia o predomínio do pensamento ideológico moderno no contexto do Irã e do Islã e o movimento democrático busca um equilíbrio de poder entre as instituições do Estado e a sociedade civil para garantir a soberania da lei, o bom governo, a responsabilidade, a transparência e as liberdades coletiva e individual, assim como o papel desempenhado pela religião na política.Para muitos, uma tal estrutura política moderna foi possibilitada pelo xá Abbas. Na consciência nacional iraniana, foi ele quem deu uma visão do caminho a ser seguido.* Elaheh Rostami-Povey é professor na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de LondresADMIRAÇÃO"Muitos enxergam nele (Abbas) o fundador do Estado moderno. Seus esforços para posicionar o Irã como centro comercial e artístico entre Oriente e Ocidente servem de inspiração para os políticos modernos"

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