Islamabad pede que Washington pare com 'recados pela mídia'

Após ação que matou Bin Laden, antigos aliados têm relação desgastada e travam troca de[br]acusações em jornais

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2011 | 00h00

A escalada da hostilidade entre EUA e Paquistão, depois da operação militar que resultou na morte do saudita Osama bin Laden em Abbottabad, transformou-se em uma queda de braço entre os dois países, travada, em grande parte, nas páginas dos jornais paquistaneses. O ministro interino de Relações Exteriores, Salman Bashir, disse ontem que os EUA devem "parar de mandar recados ao Paquistão pela imprensa".

"Se os EUA quiserem a cooperação do Paquistão, terão de parar de mandar mensagens pela mídia e contactar o governo diretamente", disse Bashir. O ministro reafirmou que "a luta contra o terrorismo é do interesse do Paquistão", tanto quanto dos EUA. Bashir defendeu-se da acusação de que seu governo teria negado acesso dos EUA às viúvas de Bin Laden, encontradas no complexo onde o saudita foi morto.

Segundo ele, o governo paquistanês "não recebeu nenhum pedido formal dos EUA para ter acesso aos parentes de Osama bin Laden". Além das viúvas, os filhos de Bin Laden também estariam sob custódia. O futuro das 15 pessoas que estavam com o saudita na casa e agora estão sob custódia do Paquistão ainda é incerto.

A confusão envolvendo as viúvas de Bin Laden foi apenas mais um incidente diplomático na desgastada relação entre EUA e Paquistão. A notícia divulgada pelo jornal The New York Times de que o presidente dos EUA, Barak Obama, ordenou que o grupo envolvido na operação de caça a Bin Laden se preparasse para um confronto militar com o Paquistão, caso encontrasse resistência, foi recebido pelo governo paquistanês como mais um sinal de quebra de confiança.

O vazamento do nome do chefe da CIA em Islamabad, publicadas pela imprensa paquistanesa, foi visto pelos EUA como uma provocação do ISI, serviço de inteligência paquistanês, e uma tentativa de tirar o foco do caso Bin Laden.

As acusações de conivência do governo paquistanês com Bin Laden, que estaria vivendo no Paquistão havia mais de cinco anos, recaem sobre o ISI.

Tais acusações teriam enfurecido o chefe do ISI, general Ahmed Shuja Pasha. Réu em dois processos abertos nos EUA, que vincula o serviço secreto aos ataques terroristas de 2008 em Mumbai, na Índia, Pasha tem sido alvo de acusações da CIA nos últimos anos. Ele ainda não se pronunciou sobre a operação americana que resultou na morte de Bin Laden.

Sob forte pressão interna, o premiê do Paquistão, Yousef Raza Gilani, ordenou uma investigação sobre possíveis "falhas" no serviço de inteligência, que permitiram a Bin Laden viver no país por tanto tempo sem ser descoberto. No entanto, em seu discurso à nação, na segunda-feira, sobre a morte de Bin Laden, ele defendeu o ISI. Gilani e o chefe das Forças Armadas do Paquistão, general Ashfaq Parvez Kayani, falarão ao Parlamento na sexta-feira.

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