Islamabad terá de escolher entre jihadistas e Ocidente

A morte de Osama bin Laden pode ser um momento de transformação para o Paquistão e o seu Exército. O país tem a oportunidade de decidir se quer confrontar a violência islâmica ou encarar as consequência da atual política dos militares de dar apoio aos jihadistas com uma mão, ao mesmo tempo que os esbofeteia com a outra.

Pervez Hoodboy, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2011 | 00h00

Se o Paquistão escolher este segundo caminho, ficará cada vez mais vulnerável ao caos interno e a uma ação americana mais direta contra os insurgentes que operam abertamente no país.

Desde a operação dos EUA contra Bin Laden, seus anfitriões ainda se perguntam como tudo ocorreu e porque as defesas aéreas paquistanesas permaneceram inativas. Sugestões feitas por líderes paquistaneses e americanos de que o Paquistão teve um papel importante na operação caíram no vazio. Longe de dar alguma função para as Forças Armadas paquistanesas na operação, os EUA as consideravam uma ameaça potencial e não as informaram da operação.

Mesmo o general aposentado, conhecido por sua ferocidade, Hamid Gul - ex-chefe da inteligência paquistanesa e simpatizante aberto de Bin Laden que defende a guerra contra os EUA - não acredita que o Exército desconhecia o paradeiro do terrorista. "Além do Exército", observou, "existe a polícia local, o serviço de inteligência, a inteligência militar, a ISI; todos tinham uma presença ali". E as intrusivas agências de inteligência paquistanesas são muito boas em descobrir estrangeiros.

É bem possível que Bin Laden tenha sido mantido na reserva pelo Exército como o derradeiro troféu a ser negociado no momento certo pelo preço certo, em dólares ou concessões políticas.

Infelizmente para o Exército paquistanês, os EUA mataram a galinha dos ovos de ouro e um ativo potencial transformou-se numa responsabilidade grave. Porque se as autoridades mostrarem satisfação, isso pode enfurecer os islâmicos, que são uma real ameaça para o Estado.

Com Bin Laden morto, o Exército tem dois ativos estratégicos importantes remanescentes: suas armas nucleares e a fraqueza dos americanos no Afeganistão. E com certeza vai tirar o máximo de vantagem desses dois fatores. Mas isso não vai garantir a paz e a prosperidade que os paquistaneses tanto anseiam. Não resolverá as crises de eletricidade e de água, a terrível situação econômica, nem os protegerá dos atentados.

É PROFESSOR DE FÍSICA EM LAHORE E ISLAMABAD E ESCREVEU ESTE ARTIGO PARA O "LOS ANGELES TIMES"

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