Islâmicos do Paquistão não dão apoio absoluto ao Taleban

Os partidos islâmicos do Paquistão - que têm intensificado sua oposição ao regime do presidente paquistanês, Pervez Musharraf, por causa de seu apoio à aliança militar liderada pelos EUA nos ataques ao Afeganistão - têm sua base de apoio principalmente em cidades como Karachi, Peshawar e Quetta, onde se registraram os protestos antiamericanos mais violentos dos últimos dias, segundo explicou à Agência Estado Khalid Rahman, diretor-executivo do Instituto de Estudos Políticos de Islamabad, órgão independente em relação às instituições políticas do país. Segundo Rahman, partidos como o Jamiat-i-Islamiya, o Jamiat-i-Ulema-i-Islam, o Jamiat Ahle Hadith e o Sipah-e-Sahaba, entre outros, mantêm diferentes níveis de envolvimento ou de discordância com os mujahedines, que formam atualmente o Taleban, no controle do vizinho Afeganistão. Internamente, mantêm posições também diferentes em relação ao governo do presidente paquistanês, Pervez Musharraf, que tomou o poder em outubro de 1999 por meio de um golpe de Estado. "O maior partido islâmico do Paquistão, o Jamiat-i-Islamiya, apóia os mujahedines afegãos desde o começo da guerra com a União Soviética, em 1979, mas é um engano pensar que esse apoio é incondicional", diz o analista. "Embora o partido esteja liderando os recentes protestos contra os ataques da aliança liderada pelos EUA contra o Afeganistão, seus líderes chegaram a pressionar os talebans para que entregassem Osama bin Laden e o Jamiat-i-Islamiya condenou com veemência os ataques terroristas de 11 de setembro", afirma Rahman. "O partido voltou-se contra Musharraf principalmente por causa da opção do governo de apoiar o ataque de um país não islâmico contra um país islâmico", explica. "Já os partidos menores têm pressionado Musharraf por considerá-lo um ditador que despreza qualquer idéia de democracia e aproveita o contexto político internacional para reivindicar a reabertura do Parlamento, a volta do debate sobre as decisões governamentais e, em última análise, a sua fatia de poder." Rahman destaca que todos os partidos islâmicos desprezam os eventuais benefícios econômicos que a cooperação com Washington pode trazer. "Primeiro, eles consideram que historicamente o povo paquistanês nunca levou nenhuma vantagem por causa da cooperação com potências estrangeiras; depois, consideram indigna a barganha de posições ideológicas, que, no caso, são também religiosas." Segundo o analista, os partidos islâmicos do Paquistão não podem ser confundidos com seus similares de países como a Turquia, o Egito ou a Argélia. "Não se trata de grupos religiosos que lutam pela instauração de um Estado islâmico num país secularista, mas partidos que desejam atuar politicamente num Estado que é islâmico por força de sua Constituição e estão afastados do poder por um regime de fato", diz. "A diferença entre os partidos islâmicos e os partidos laicos do Paquistão é que, nos primeiros, algumas diretrizes básicas que são ditadas pelo Alcorão não podem ser modificadas pela maioria", prossegue Rahman. "Por exemplo, como a religião islâmica condena o consumo de álcool, membros de um partido islâmico não podem propor nem votar em favor da abolição dessa proibição." Leia o especial

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