Esam Al-Fetori/Reuters
Esam Al-Fetori/Reuters

Islâmicos e laicos se distanciam na Líbia

Acusados de não saber lutar e alvo do desprezo dos não islamistas, religiosos denunciam 'extremismo secular' em conselho de transição

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2011 | 00h00

TRÍPOLI

Apesar de ser assessorado desde o início por um conselho de clérigos islâmicos, o Conselho Nacional de Transição (CNT) é visto como um grupo secular. Em entrevista ao Estado, o xeque Ali Salabi, espécie de líder espiritual da revolução, denunciou a existência de "extremistas seculares" no conselho, que estariam alardeando o perigo do fundamentalismo islâmico, encarnado por figuras como ele próprio e o chefe do Conselho Militar de Trípoli, Abdel Hakim Belhaj.

Líder do extinto Grupo Combatente Islâmico Líbio, Belhaj lutou no Afeganistão ao lado de Osama bin Laden, mas garante nunca ter aderido à campanha da Al-Qaeda contra os Estados Unidos, concentrando-se na luta contra Kadafi. Mesmo assim, sua organização, rebatizada de Grupo Islâmico Líbio pela Mudança, está na lista da ONU de organizações terroristas.

Mesmo no calor da guerra civil, seculares e islâmicos lutaram separadamente. Um líbio secular exilado nos Estados Unidos que distribuiu armas compradas com dinheiro arrecadado, segundo ele, de empresários líbios, contou ao Estado que homens vinculados ao xeque Ali Salabi também estavam distribuindo armas, exigindo em troca lealdade à corrente islâmica.

Um integrante do comando da Brigada de Misrata contou ao Estado que, na cidade conflagrada, os combatentes seculares disseram aos membros da Irmandade Muçulmana que lutassem separados deles. O combatente acusou os "irmãos muçulmanos" de não saberem lutar e de terem tomado o Conselho Local de Misrata para si quando a luta na cidade acabou, enquanto a brigada seguia lutando em Zawiya, Trípoli, Bani Walid e Sirte.Os membros da Irmandade são chamados com desprezo de "irmãs" pelos combatentes seculares de Misrata.

Trípoli é uma cidade dividida pelas diversas brigadas revolucionárias que participaram de sua tomada - a de Misrata, a de Jadu, a de Zintan, a das Montanhas de Nafusa e até a de Benghazi (que veio de navio), além da própria Brigada de Trípoli, formada na maioria por exilados que nasceram na capital ou cujos pais provêm de lá.

À pergunta sobre por que não voltam para suas cidades, vários integrantes dessas brigadas responderam ao Estado que ficarão em Trípoli para garantir seu espaço na formação do novo governo líbio.

O poder na Líbia pós-Kadafi está dividido entre as brigadas e o CNT, que controla o Banco Central, a venda de petróleo, o retorno dos ativos descongelados no exterior e a ajuda da comunidade internacional.

"Eles têm o dinheiro, nós temos as armas", disse um membro do comando de uma brigada. Dessa correlação de forças depende o futuro da Líbia.

PERFIS

Ali Salabi, xeque e espécie de líder espiritual da revolução

De preso a Mediador

Depois de quatro anos na prisão de Abu Salim, entre 1984 e 1988, exilou-se em diversos países, até instalar-se no Catar, de onde voltou durante o levante, este ano. Em 2005, Salabi aceitou convite de Saif al-Islam, filho de Muamar Kadafi, para mediar negociações que levaram cerca de 500 militantes islâmicos a serem soltos de Abu Salim. Em fevereiro, Saif pediu de novo ajuda do clérigo, para conter o levante. Ele recusou e passou a incentivar a rebelião. Seu irmão Ismail Salabi comanda os 3 mil homens da Brigada 17 de Fevereiro, de Benghazi.

Abdel Hakim Belhaj, chefe do Conselho Militar de Trípoli

De "terrorista" a aliado dos EUA

Emir do Grupo Combatente Islâmico Líbio, que está na lista da ONU de organizações terroristas. Lutou e treinou no Afeganistão ao lado de Osama Bin Laden e sob proteção do Taleban. Garante que nunca aderiu à campanha da Al-Qaeda contra os EUA, concentrando-se em atentados contra Muamar Kadafi. Seguido pela CIA e pelo MI-6, serviço secreto britânico, foi preso em 2004 na Malásia e entregue às autoridades líbias. Afirma que foi torturado na prisão de Abu Salim e exige pedido de desculpas dos EUA e da Grã-Bretanha.

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