Islâmicos 'mais moderados' fogem de debate com radicais

Cenário: David Kirkpatrick / NYT

O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2011 | 03h05

Para o xeque Abdel Moneim el-Shahat, a proposta da Irmandade Muçulmana de aplicar somente os princípios mais gerais da lei islâmica proporciona liberdade demais. Ele é um dos líderes ultraconservadores conhecidos como salafistas, cujo partido, o Al-Nur, encontra-se, segundo resultados preliminares, em segundo lugar nas eleições parlamentares egípcias, atrás do Partido Justiça e Liberdade, braço político da Irmandade. Eles exigem rigorosas proibições contra os empréstimos acrescidos de juros, o álcool e a "fornicação", e preveem punições corporais tradicionais, como o apedrejamento, em casos de adultério.

O inesperado sucesso obtido pelos salafistas nas urnas - 24% dos votos na primeira rodada das eleições - está aterrorizando os liberais egípcios e preocupando o Ocidente. Mas seu novo poder de influência está também apresentando um desafio à Irmandade Muçulmana, em parte ao mergulhá-la num polarizador debate entre duas correntes islâmicas envolvendo a aplicação da lei islâmica na prometida democracia egípcia - debate que a Irmandade esforçou-se para evitar.

A Irmandade Muçulmana, grupo que virtualmente inventou o movimento islâmico oito décadas atrás, é no seu íntimo uma instituição missionária de classe média, liderada não por estudiosos da religião, mas por médicos, advogados e profissionais. Há muito ela busca aproximar o Egito de uma sociedade islâmica mais ortodoxa, transformando o país de baixo para cima, convertendo uma pessoa e uma família de cada vez.

Depois de uma longa luta na clandestinidade durante o regime do presidente Hosni Mubarak, seus líderes buscaram evitar debates envolvendo os detalhes da lei islâmica, temendo que eles produzissem discórdia e despertassem alertas contra um golpe islâmico decisivo. Mas sua resistência em comentar o tema alimentou as antigas suspeitas de outros grupos, incluindo outros muçulmanos, segundo as quais a Irmandade estaria mais preocupada em conservar o poder.

Os salafistas são novatos na política, dirigidos por líderes religiosos de barba longa, imitando o Profeta Maomé. Muitos desaprovam o convívio entre os gêneros, recusando-se a apertar a mão das mulheres, cuja participação em atividades políticas não é nem mesmo cogitada.

Nos comentários públicos, os líderes da Irmandade têm preferido manter o foco em temas mais amplos da identidade islâmica e nas questões cotidianas que representam a preocupação mais urgente dos eleitores. Nos eventos da campanha, a Irmandade às vezes parece seduzir os dois lados - soando como os salafistas em certos momentos, mas defendendo a moderação em seguida.

"Votar nos muçulmanos é uma questão religiosa", declarou o estudioso do Islã Sayed Abdel Karim num comício. "O renascimento do espírito islâmico é uma ameaça direta a Israel, ao futuro da civilização ocidental, à Europa e aos EUA."

Momentos mais tarde, entretanto, o principal orador e candidato de mais destaque na lista do partido, Essam el-Erian, declarou que o partido acreditava apenas na extensão da cidadania não sectária a todos, na igualdade de direitos entre cristãos e muçulmanos, ambos "filhos do país" sob a ótica de um Estado neutro, e na necessidade de proteção à liberdade de expressão na Constituição.

Os líderes do partido da Irmandade apoiaram compromissos públicos com a proteção dos direitos individuais. E a plataforma do grupo menciona constantemente a troca da coerção legal pelo encorajamento a iniciativas particulares para uma mudança gradual.

Diferentemente dos salafistas, o partido não propôs a regulação do conteúdo das artes e do entretenimento, do vestuário e do trabalho das mulheres, nem mesmo do conteúdo religioso do ensino público. Na verdade, a plataforma do partido pede a redução das dimensões do governo com o objetivo de limitar a corrupção e promover uma economia mais liberal.

Em vez disso, a Irmandade propõe mudar a sociedade por meio do bom exemplo. Na cultura, a "autocensura" seria encorajada num pedido aos artistas e autores para que assinassem um "código de ética". O governo, por sua vez, apoiaria músicas, filmes e outras formas de arte que promovessem valores da religião e da família.

Os salafistas costumam favorecer a ideia de um conselho especializado de estudiosos da religião incumbido de aconselhar o Parlamento ou analisar a legislação para garantir que ela respeite a lei islâmica. Poucos anos atrás, era a própria Irmandade que debatia ideias semelhantes. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.