Islâmicos vencedores de eleição egípcia querem rever acordo de paz com Israel

de Strauss-Kahn

CAIRO, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h05

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Grande vencedora das eleições legislativas no Egito, a Irmandade Muçulmana anunciou ontem que defende a revisão do Acordo de Paz de Camp David, firmado com Israel em 1979. O pacto - que encerrou quatro décadas de tensão e guerras entre Egito e Israel - foi assinado "há muito tempo", argumentou o secretário-geral do grupo, Mahmoud Hussein, e deve ir a debate no Parlamento.

Até o fim da ditadura de Hosni Mubarak, a Irmandade era o principal grupo da oposição clandestina no Egito. Com a queda do ditador, em fevereiro, a organização islâmica emergiu de vez como a maior e mais bem organizada força popular do país - para o temor dos militares egípcios, além de governos europeus, dos EUA e de Israel.

O resultado das eleições da semana passada consolidou o então incipiente protagonismo da Irmandade: o braço político do grupo, o Partido Liberdade e Justiça, conquistou 36,5% dos votos. A facção islâmica ultrarradical Al-Nour ficou em segundo lugar, com 24%.

"Muito tempo se passou desde que o Acordo de Camp David foi assinado. Como outros acordos, ele precisa ser revisto e isso está nas mãos do Parlamento", disse o secretário-geral da Irmandade, em entrevista ao jornal pan-arabista Asharq al-Awsat, publicado em Londres.

"Acreditamos que o tratado é muito importante, mas ele não está no topo de nossa lista de prioridades. Há outras prioridades por enquanto", ponderou Hussein. "E, de modo geral, Israel não honra o acordo."

O secretário-geral da Irmandade ainda negou qualquer tipo de acordo com EUA e Israel "sobre a importância de garantir salvaguardas ao acordo de paz".

Na semana passada, com a divulgação dos resultados das eleições no Egito, funcionários do governo israelense conclamaram o novo Parlamento no país vizinho a respeitar os acordos firmados.

Disputa. As declarações do secretário-geral da Irmandade vêm à tona em uma momento de crescente tensão entre o partido vencedor das eleições e a junta militar que governo o Egito desde a queda de Mubarak.

Na quinta-feira, o partido islâmico anunciou que boicotará o conselho instituído pelos militares para supervisionar a elaboração de uma nova Constituição. A decisão foi uma retaliação aos comentários do porta-voz da junta, general Mukhtar al-Mulla, que negou a representatividade do novo poder Legislativo.

"O Parlamento escolhido não representa todos os segmentos do povo egípcio, enquanto a Constituição determinará a lei que será aplicada a todos os egípcios", disse Mulla a jornalistas estrangeiros. "Esse Parlamento não definirá sozinho a Constituição", completou.

A princípio, havia sido decidido que o novo Congresso escolheria uma comissão de cem especialistas para escrever a nova Constituição. Não está claro agora como será formado o poder constituinte.

O resultado final das eleições será divulgado em meses. A nova legislatura tomará posse no dia 1.º de abril.

Prejuízo. As pirâmides de Gizé, o cartão-postal do Egito, foram ontem palco de um protesto contra os partidos islâmicos que venceram as eleições. Cerca de mil manifestantes reclamaram que, com esses grupos no poder, a indústria do turismo - segunda maior fonte de divisas do Egito, após o Canal de Suez - será seriamente prejudicada. / REUTERS

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