Islamofobia alemã volta como vingança

N não sou nazista, diz o dono da pousada. "Conheço os negros, os turcos. Só quero minha paz e meus direitos de cidadão alemão." "Eles não são nazistas", afirma o vizinho, apontando para um grupo. "São jovens que o sistema transformou no que são agora." "Vamos precisar nos defender dos 'kanaken'", alerta um dos organizadores com uma faixa branca no braço, usando um termo ofensivo racista referindo-se à gente do sul da Europa e do Oriente Médio.

O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2015 | 02h02

Na quarta-feira, em Chemnitz, na Saxônia, uma barricada erguida pelos cidadãos continuava no lugar 48 horas depois. Mais uma vez, centenas de pessoas haviam se reunido na Rua Anton Hermann, ladeada por lindas casas, que leva a um antigo acampamento dos escoteiros.

Um post no Facebook dos Europeus Patrióticos Contra a Islamização do Ocidente (mais conhecido pela sigla alemã Pegida) informava, na segunda-feira, que ônibus lotados de "invasores" estavam se aproximando do acampamento. Em resposta, os habitantes do local bloquearam a única estrada que levava às acomodações destinadas aos refugiados - e a polícia nada fez para impedi-los.

Na quarta-feira, mais de mil pessoas fizeram uma passeata silenciosa no meio da chuva, entre slogans pintados nas paredes: "Vamos proteger nossa terra". Um manifestante berrava num megafone que a resistência continuaria pelo tempo que fosse necessário.

As pessoas aplaudiram. "Graças a Deus", suspirou uma delas. "Tinha medo de que isso não fosse continuar". Mas está continuando. O Pegida está de volta, aparentemente mais poderoso do que nunca. Durante algum tempo, ele quase desapareceu. Seus fundadores caíram em desgraça e o líder do movimento, Lutz Bachmann, teve de abandonar a direção depois que o tabloide Bild publicou uma foto dele posando como Hitler.

O comparecimento aos protestos do Pegida havia se reduzido. Mas, uma semana atrás, na segunda-feira, cerca de 10 mil pessoas foram às ruas em Dresden, quase o mesmo número registrado no pico dos protestos no inverno passado.

Desta vez, não se trata apenas de protestos pacíficos, como demonstra o bloqueio montado em Einsiedel. O movimento está se tornando mais radical. Na segunda-feira, milhares de manifestantes do Pegida saíram em passeata por Dresden gritando palavras de ordem como: "Deportar, deportar", "Nós somos o povo" e "Merkel deve sair!"

Outros cartazes eram dirigidos contra "os que odeiam tudo o que é alemão", a "máfia do asilo" e a "corja dos políticos", referencia à condenação feita pelo vice-chanceler Sigmar Gabriel aos manifestantes de direita que protestam contra os refugiados. Em discurso, Bachmann definiu o governo alemão como "nossos ditadores em Berlim".

Na terça-feira, um porta-voz da Procuradoria de Dresden informou que abriu uma investigação contra os autores dos cartazes, que poderão ser acusados de perturbação da ordem pública mediante incitação a um comportamento criminoso.

"Isso deveria deixar claro que há limites para o direito de reunião e para a liberdade de expressão", disse um porta-voz da procuradoria à TV MDR. O Pegida atualmente está se aproveitando da atmosfera instável criada pelo debate sobre os refugiados na Alemanha. As posições políticas, antes domínio exclusivo de demagogos populistas como Bachmann, estão sendo adotadas até por políticos da União Democrata Cristã (CDU) de Merkel, o que por seu lado funciona como um convite aos partidários do Pegida para se tornarem ainda mais radicais.

Tatjana Festerling, uma candidata do Pegida que recebeu quase 10% dos votos nas eleições para prefeito de Dresden, em junho, afirmou: "Já estamos em guerra". Na segunda-feira, ela definiu Merkel como a mulher mais perigosa da Europa e conclamou a uma "Säxit", a separação da Saxônia da Alemanha.

O Pegida começou como um "movimento de indignados" difuso, diz o cientista político Hans Vorländer. Agora, encontrou alvos mais precisos: os refugiados e Merkel. Segundo ele, a retórica do grupo perdeu a inibição. Nos primeiros dias, os membros do Pegida ridicularizavam a mídia como a "imprensa da mentira", mas a estes epítetos estão sendo substituídos por ataques físicos reais a jornalistas.

Há duas semanas, partidários do Pegida atacaram jornalistas da MDR e do diário Dresdner Neuesten Nachrichten. Funcionários da MDR, a emissora pública da Saxônia, Turíngia e Saxônia-Anhalt, relataram insultos, atos de vandalismo e ataques por membros do Pegida. Eles afirmam que o número de incidentes está aumentando.

Na revista Compact, Jürgen Elsässer, que escreve sobre o Pegida, conclamou às armas as Forças Armadas da Alemanha para que resistam ao governo. "Na atual situação, a decisão é de vocês, soldados da Bundeswehr. Cumpram seu juramento e protejam o povo alemão."

" No mínimo, o movimento está fazendo discursos incendiários", adverte Vorländer, acrescentando que o Pegida está "preparando uma ação mais radical". Num relatório sobre a situação, o Departamento Federal de Polícia Criminal (BKA), o equivalente alemão do FBI, escreve que a agitação provocada pela direita está tendo um "efeito catalisador". Nos primeiros nove meses deste ano, o BKA registrou mais de 400 ataques contra albergues para pessoas que procuram asilo. Em todo o ano de 2014, houve apenas cerca de 200.

A distância entre as palavras e as ações está se reduzindo cada vez mais. Centenas de entusiastas das "cercas de arame" criaram um evento no Facebook para o dia 8 de novembro com finalidade de selar a fronteira alemã por conta própria.

Um dos líderes é Michael Viehmann, ex-funcionário de supermercado de Kassel, que também esteve envolvido nos protestos em Sebnitz. Note-se que foi em 8 de novembro que Adolf Hitler lançou seu fracassado Putsch da Cervejaria, em 1923.

Ano passado, Viehmann fundou uma filial do Pegida e tornou-se o alvo de uma queixa crime depois de postar discursos de ódio na internet. Ele teria incitado a população contra os judeus no Facebook, afirmado que, felizmente, "logo eclodirá uma revolução e toda a corja de políticos alemães acabará com o crânio esmagado". Viehmann apelou e um tribunal local deverá decidir o caso. Mas seu passado não impediu sua ascensão no movimento. Ao contrário, Viehmann agora faz parte do círculo restrito do Pegida.

Munique, onde no início deste ano foi criada uma associação do Pegida para "promover os direitos dos cidadãos", é outro exemplo. O Escritório do Procurador Federal de Karlsruhe abriu uma investigação contra o líder do grupo de Munique, Heinz Meyer, suspeito de fundar uma organização terrorista.

Meyer diz que a acusação não tem fundamento, mas teria tido contato com Martin Wiese, notório neonazista e terrorista de direita condenado à prisão. Além de Meyer, membros do Pegida da Baviera não dão mostras de grande perspicácia na escolha dos seus líderes.

Entre os outros membros do conselho do Pegida de Munique está um ex-candidato ao Parlamento pelo Partido Nacional Democrático da Alemanha (NPD), antissemita, neonazista e xenofóbico, amigo de Michael Stürzberger, figura-chave do blog Politicamente Incorreto (PI), que é anti-Islã. Na semana passada, o PI conclamou os leitores a derrubar Merkel. As pessoas por trás do PI dizem que a "resistência" segue a tradição de Claus von Staufferberg, que quis assassinar Hitler.

Na Baviera, agentes do Escritório Federal de Proteção da Constituição, que monitora a atividade extremista, falam de uma "maciça escalada verbal" por parte de grupos antimuçulmanos. A agência considera preocupante o fato de os extremistas terem começado a influenciar pessoas antes não contaminadas pela "campanha de ódio".

Esse grupo também poderá se tornar uma fonte futura de "ataques inspirados pela xenofobia". A aproximação entre partidos extremistas e irados cidadãos alemães, após a chegada de refugiados, é um fenômeno que preocupa as autoridades.

Agora, os representantes do Escritório Federal de Proteção da Constituição esperam apanhar os líderes do NPD e de outros partidos neonazistas e descobrir maneiras de desestabilizar este cenário." "Algo está caminhando na nossa direção", diz um membro do alto escalão da inteligência alemã. "Precisamos tentar detê-lo". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

DER SPIEGEL

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