Islamofobia contamina aniversário do 11/9 e eleições cruciais para Obama

Discurso inflamado. Ícones do Partido Republicano partem para o ataque contra construção de centro islâmico perto do local antes ocupado pelas Torres Gêmeas, projeto defendido pela maioria dos democratas; na TV, presidente sublinha que não é muçulmano

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

Em período pré-eleitoral, as cenas de fobia ao Islã observadas nos EUA nos últimos dias contaminam a disputa entre republicanos e democratas. Sensível e emocional, a oposição à construção de um centro comunitário muçulmano nas proximidades do antigo World Trade Center, em Nova York, destruído no ataque terrorista há nove anos, tornou-se bandeira dos republicanos para obter a maioria do Congresso em 2 de novembro.

Ontem, um americano não identificado queimou páginas do Alcorão em Nova York, perto do Marco Zero, como é chamado o terreno das Torres Gêmeas. No Tennessee, dois pastores repetiram o gesto e o líder do grupo conservador Tea Party em Indiana, Andrew Beacham, rasgou páginas do livro sagrado do Islã na frente da Casa Branca, em Washington.

Em sua página no Facebook, Sarah Palin, ex-candidata a vice-presidente pelos republicanos em 2008 e uma das líderes do Tea Party, criticou a onda islamofóbica, dizendo que queimar o Alcorão "é um ato tão insensível e uma provocação tão desnecessária como construir uma mesquita no Marco Zero".

O ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani seguiu a mesma linha de Palin. "(O pastor) agora diz que há um acordo para transferir a mesquita (para outro local). Seria bom que a transferissem, independentemente de haver um acordo", disse.

Na mesma sexta-feira, o presidente dos EUA, Barack Obama, esforçou-se para não fazer da islamofobia mais uma frente de batalha eleitoral entre os dois partidos. Em entrevista coletiva, Obama mencionou que admirava seu antecessor, o republicano George W. Bush, por ter enfatizado que as guerras que eclodiram depois de 11 de setembro de 2001 não foram contra o Islã, mas contra as organizações terroristas.

Mas a briga já está instalada. E Barack Hussein Obama, por carregar um nome muçulmano e ser filho de um queniano islâmico, está no centro da discórdia (mais informações nesta página). Na mesma entrevista, o presidente americano precisou reforçar sua fé cristã, que vem sendo posta em dúvidas, especialmente, por outro líder do Tea Party, Glenn Beck, apresentador da TV Fox News, de linha ultra-oposicionista ao governo democrata.

Segundo Stephen Kinzer, professor da Northwestern University, as recentes atitudes islamofóbicas são o reflexo da desorientação de uma parcela expressiva de americanos, que se vê diante uma enxurrada de fatos novos: o primeiro presidente afro-americano da História, a presença cada vez maior de gays entre seus representantes no Congresso, a maior relevância de judeus, católicos e mulheres no governo. A identificação do que é ser americano tornou-se mais diluída e provocou rejeição ao "outro".

Esse "fenômeno paranoico", completou Kinzer, não é novo na História dos EUA. Foi repetido quando os primeiros chineses, italianos, poloneses e irlandeses chegaram ao país. Depois, com os imigrantes latino-americanos. "Agora, os muçulmanos são vistos como o outro. Muitos americanos identificam o presidente Obama como o outro", afirmou Kinzer. "Neste momento de proximidade das eleições legislativas de novembro, os republicanos tentam puxar essa questão em seu favor."

Nesse turbilhão em torno da construção do centro comunitário islâmico, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, conseguiu se equilibrar com rara perfeição. Favorável ao projeto, ele manteve os mesmos 49% de aprovação entre agosto e setembro.

O que mudou foi a composição do apoio que recebe de democratas, que aumentou oito pontos porcentuais, e de republicanos, que caiu 19. Na avaliação do instituto, a posição de Bloomberg sobre esse tema não passou despercebida.

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