Reuters-11/9/2001
Reuters-11/9/2001

Islamofobia, o efeito colateral dos ataques

Hoje, 1/3 dos americanos acha que muçulmanos deveriam ser proibidos de ocupar a Casa Branca

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

Até o 11 de Setembro, a imagem do muçulmano no imaginário popular dos EUA era a do boxeador Muhammad Ali e do ativista negro Malcolm X. Uma geração antes, eram as cenas de Peter O"Toole e Omar Sharif em Lawrence da Arábia. Os atentados que destruíram o World Trade Center e o atingiram o Pentágono mudariam para sempre a forma como os americanos - e o Ocidente - percebiam os devotos do Islã. Alguns muçulmanos inocentes começaram a ser alvo de ataques nos EUA, apesar de o governo de George W. Bush sempre defendê-los, martelando, desde o dia dos atentados de 2001, que "o Islã era uma religião da paz, e não do ódio".

Com a chegada de Barack Obama à Casa Branca, o cenário se agravou e a islamofobia - o ódio ou aversão aos muçulmanos - aumentou. O novo presidente era negro e filho de pai muçulmano. Para completar, herdou um país em crise econômica. "Alguns integrantes da oposição e de grupos organizados usaram a questão do medo do terrorismo, a tensão com a situação da economia e o racismo existente para exacerbar um preconceito contra um presidente visto como "o outro", igual aos inimigos muçulmanos", disse ao Estado James Zogby, presidente do Instituto Árabe-Americano.

Seria mais ou menos como um presidente filho de soviético na época do Macarthismo ou de um japonês depois de Pear Harbor. "O que já era grave depois do 11 Setembro, piorou ainda mais nos últimos dois anos", segundo o Conselho de Relações Islâmico-Americanas (Cair, na sigla em inglês).

Mais de um quarto da população muçulmana nos EUA diz ter sido alvo de alguma forma de preconceito em 2011, de acordo com pesquisa do Pew Research Center divulgada na semana passada. Um terço dos americanos acha que muçulmanos não deveriam ter o direito de concorrer à presidência dos EUA e 28% são contra a presença de um seguidor do islã na Suprema Corte, de acordo com levantamento da revista Time.

Nos últimos dois últimos anos, uma ampla campanha islamofóbica foi lançada nos EUA, segundo um estudo do instituto Center for American Progress ao qual o Estado teve acesso. Cerca de US$ 40 milhões foram investidos por fundações para financiar think-tanks e projetos que "incentivam a islamofobia". Esses grupos, segundo o estudo, são o Donors Capital Fund, Richard Mellon Scaife Foundations, Lynde and Harry Bradley Foundation, The Russell Berrie Foundation, Becker Foundation, Anchorage Foundation e The Fairbook Foundation.

Os receptores da dinheirama incluem comentaristas e ativistas classificados como islamofóbicos pela Liga Anti-Difamação, como Daniel Pipes, Pamela Geller e Robert Spencer, que costumam atacar o Islã e os muçulmanos. Os três tiveram seus nomes citados dezenas de vezes de forma elogiosa nos escritos deixados pelo terrorista extremista norueguês Anders Breivik, que matou 77 pessoas em duplo atentado em Oslo e na ilha de Utoya no mês passado.

Além de Pipes e Spencer, está incluído também o advogado David Yerushalmi, da Society of Americans for Social Existance. De acordo com reportagem New York Times e com o estudo do Center for American Progress, Yerushalmi elaborou projetos de lei para banir a sharia dos Estados Unidos. Suas recomendações foram praticamente recortadas e coladas nos textos aprovados nos estados do Texas, Alasca e Carolina do Sul, que mudaram a lei local para vetar o código legal do Islã. Outros 20 estados dos EUA estudam adotar a mesma medida.

A lei é fruto de pura paranoia, apontam especialistas. Não há interesse dos muçulmanos em implementar a sharia nos EUA e a questão religiosa é usada como suporte apenas para casos civis no país. O mesmo se aplica para judeus, cristãos, budistas e membros de qualquer outra religião.

"Mesquita" no Marco Zero. Para o professor Petter Gottschalk, do Departamento de Estudos da Religião da Universidade Wesleyan a autor do livro Islamophobia: Making Muslims the Enemy ("Islamofobia: fazendo dos muçulmanos o inimigo", sem tradução no Brasil), "os grupos anti-Islã ficaram mais eficientes e a retórica islamofóbica foi usada por muitos candidatos republicanos nas eleições parlamentares de 2010". "Pessoas como Spencer usam termos islamofóbicos e os difundem por meio da mídia. Eles apenas exacerbam uma islamofobia existente dentro de parte da população americana desde antes da independência dos EUA", acrescentou.

Outro alvo da fúria islamofóbica foi o plano de construir uma mesquita perto do Marco Zero, em Manhattan. Informações mentirosas de grupos antimuçulmanos foram divulgadas indicando que o templo seria construído exatamente onde estavam as torres. Na realidade, o projeto é para um centro islâmico, nos moldes da Associação Cristã de Moços, com academia, eventos culturais e um espaço para orações a dois quarteirões de distância. Dentro do WTC, também havia um espaço para orações islâmicas, assim como ainda um existe no Pentágono.

A campanha islamofóbica conseguiu atrair também figuras políticas a ex-governadora do Alasca Sarah Palin, a pré-candidata republicana Michele Bachmann e seu rival nas primárias Herman Cain. Na imprensa, o principal difusor do ódio são blogs independentes, mas com grande presença dentro do eleitorado conservador, e também a rede de TV Fox News, segundo o estudo.

Muitos políticos, diante desse cenário que vem se agravando, saíram em defesa dos muçulmanos. Michael Bloomberg recebeu o prêmio do Cair por ser o líder político que mais combate a islamofobia. O governador de Indiana, Mitch Daniels, foi o eleito pelo Instituto Árabe-Americano por sua luta contra os islamofóbicos. A comunidade islâmica também elogia o governador de Nova Jersey, Chris Christie, e o do Texas, Rick Perry, que disputa as primárias e, apesar de cristão fervoroso, admira o islamismo.

Tirando o independente Bloomberg, todos são republicanos, mostrando que o partido possui os maiores islamofóbicos, mas também alguns dos que mais combatem a islamofobia.

Apoio ao terror

Segundo pesquisa do centro Pew Research divulgada na semana passada, menos de 1% dos muçulmanos que moram nos Estados Unidos diz apoiar atentados suicidas

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