'Islamofóbicos ocupam o vácuo da ignorância com relação ao Islã'

Para escritor, pessoas como a blogueira Pamela Geller alimentam temores que remontam à Idade Média

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON

15 de maio de 2015 | 22h57

 A ativista e blogueira Pamela Geller é a principalrepresentante nos Estados Unidos do que o autor Todd Green chama de “indústriada islamofobia”. No início do mês, ela organizou o concurso de caricaturas doprofeta Maomé que foi alvo de um atentado fracassado no Texas, no qual doissuspeitos foram mortos a tiros. Em 2012, Geller esteve por trás de uma série deanúncios que associava Israel à civilização e a jihad a “selvagens”.

Na opinião de Green, pessoas como Geller ocupam o vácuo deignorância ocidental em relação aos islamismo e demonizam os muçulmanos,alimentando temores que remontam à Idade Média. Autor do livro The Fear ofIslam: An Introduction to Islamophobia in the West (O Medo do Islam: UmaIntrodução à Islamofobia no Ocidente), Green é crítico da revista francesa CharlieHebdo, alvo de um atentado que deixou 12 mortos em janeiro.

Em sua opinião, a publicação não faz sátira quando retrataquestões muçulmanas. “Sátira tem por alvo pessoas em posição de poder ouprivilégio. E os muçulmanos na França e no restante da Europa não estão emposição de poder e privilégio”, disse ao Estado.

A seguir, trechos da entrevista:

Como o sr. define islamofobia?

Minha definição básica é o medo, hostilidade e ódio emrelação aos muçulmanos e ao islamismo e as práticas discriminatórias eexcludentes que decorrem disso. E um sentimento enraizado na mentalidade demuitos governos e nações ocidentais, onde essas ansiedades são proeminentes emamplos segmentos da população. Há uma longa história, que remonta à Idade Médiae obviamente vem até o século 21. Não é um medo novo, ainda que algumas dasforças que o movam hoje sejam um pouco distintas do que eram 500 ou 600 anosatrás.

E quais são essa forças?

Eu atribuo a atual islamofobia a três forças. A primeira épolítica. Há uma longa história de imperialismo ocidental que constrói osmuçulmanos como o inimigo. Em parte pela percepção de que muçulmanos ficam nocaminho de ambições imperialistas, seja no choque com o Império Otomano noséculo 16, no colonialismo europeu do início do século 20 ou no imperialismoamericano do século 21. Os muçulmanos são percebidos como um grande obstáculo efrequentemente são desumanizados.

As outras duas causas são a falta de conhecimento quemuitos ocidentais têm em relação ao Islã. Muito poucas pessoas nos EstadosUnidos ou na Europa realmente sabem alguma coisa sobre tradições e históriaislâmicas. A maioria do que pensamos que sabemos vem principalmente da mídia,que tende a associar o Islã à violência e ao terrorismo.

Ou vêm de pessoas dedicas a produzir medo, como PamelaGeller. É o que chamo no meu livro de indústria da islamofobia. Isso cria umvácuo de ignorância que faz com que seja mais difícil ver os muçulmanos comohumanos, como pessoas que compartilham muitos dos valores, esperanças e medosque nós temos.

Qual o papel de Pamela Geller nessa indústria?

Às vezes me refiro a isso como islamofobia profissional.Quase sempre são ativistas ou blogueiros de direita, às vezes políticos naEuropa e nos Estados Unidos, que ganham a vida demonizando e desumanizandomuçulmanos. Nós não saberíamos quem eles são além de sua devoção a esseempreendimento. Não é um grupo de pessoas que ocasionalmente critica o Islã.São pessoas que se beneficiam financeira e politicamente do esforço dedemonizar muçulmanos.

O atentado contra a revista Charlie Hebdo na Françae a tentativa de atacar o concurso de caricaturas de Maomé no Texas facilita avida dos que promovem a islamofobia, não?

É difícil não concluir que isso impulsiona a carreira dealguém como Pamela Geller. Eu acredito que ela explora esse tipo de tragédias.O concurso de caricaturas de Maomé no Texas era uma resposta ao ataque a tiros contraa Charlie Hebdo em Paris. De muitas maneiras, o evento era umaexploração da grande tragédia que ocorreu.

Como o sr. compara os dois episódios? Geller apresentou seu evento como uma defesa da liberdade de expressão.

Eu não acredito que nenhum dos eventos deve ser tratadocomo uma questão de liberdade de expressão. Certamente não acredito que esse éo tipo de discussão que deveríamos ter em relação ao evento de Geller. Não erasobre liberdade de expressão. Geller gostaria que falássemos que isso é umconflito entre a proibição da liberdade de expressão do Islã. Mas não é sobreisso. É sobre ódio e é sobre isso que deveríamos falar em relação a Geller.

No caso do Charlie Hebdo é um pouco mais complicadoporque a revista se dedica à sátira e ela não é dirigida apenas contramuçulmanos. Tenho uma série de críticas em relação à Charlie Hebdo etenho uma divergência fundamental quanto à definição do que é sátira. E nãopenso que tudo o que eles fazem é sátira. Mas eles não criticam apenasmuçulmanos, enquanto Geller só ataca muçulmanos.

Se o que Charlie Hebdo faz não é sátira, o que é?

É humor ruim. Não sei nem se humor é a palavra correta.Certamente é comentário político, mas, na minha definição, sátira tem por alvopessoas em posição de poder ou privilégio. E os muçulmanos na França e norestante da Europa não estão em posição de poder e privilégio. Eles integramcomunidades marginalizadas, não têm muitos líderes proeminentes e tendem a não tervoz. Focar uma comunidade que já é marginalizada fica fora do propósito dasátira política. Sátira é realmente sátira quando atinge aqueles que estão emposição de poder e privilégio.

 

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