REUTERS/Guillermo Granja
REUTERS/Guillermo Granja

Isolada no Mercosul, esquerda uruguaia enfrenta pior fase em 11 anos no poder

Governo Tabaré Vásquez apoia Venezuela em impasse no Mercosul para mobilizar Frente Ampla em plano de corte de programas sociais

Rodrigo Cavalheiro, Enviado Especial / Montevidéu, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2016 | 05h00

MONTEVIDÉU - Ao sair, fechar a porta e deixar sob o tapete a chave da presidência do Mercosul, a esquerda uruguaia preferiu enfrentar o isolamento externo a aumentar a divisão interna que agravaria sua pior fase em 11 anos no poder. A própria coalizão governista Frente Ampla é o principal inimigo do presidente Tabaré Vázquez em seu plano de cortes sociais e aumento de imposto contra a estagnação econômica.

Enfrentar estes companheiros, os que mais defendem a passagem do comando rotativo semestral do bloco à Venezuela, ameaçaria a união e a viabilidade eleitoral do movimento esquerdista que, com as mudanças na Argentina e no Brasil, é voz solitária entre os quatro integrantes originais do bloco.

O governo uruguaio aponta a economia como raiz da instabilidade que respingou na geopolítica do continente, além de atingir sua popularidade - 15% da população considera a situação das contas boa, contra 53% em 2011, auge do governo do correligionário José Mujica. 

“A deterioração é admitida pelo governo e 70% da população estava de acordo que deviam ser tomadas medidas, mas 52% não gostou das que foram escolhidas”, diz Mariana Pomiés, diretora o Instituto Cifra, resp0nsável pela pesquisa. A alteração no imposto de renda é parte de um ajuste fiscal de US$ 500 milhões - US$ 350 milhões seriam obtidos com a alteração tributária e US$ 150 milhões com cortes.

Diante do “quadro grave”, a equipe de Tabaré reviu o crescimento para este ano para 0,5%, abaixo da última estimativa feita pelo FMI, de 1,4%. Economistas independentes acreditam que o número ficará próximo a zero. O desempenho pode parecer razoável ao olhos do brasileiro que espera uma retração de 3,8%, mas é uma surpresa para o uruguaio que se acostumou e fez planos com base em uma média de crescimento de 4,7% nos últimos 10 anos.

O desânimo é visível nos redutos mais “frenteamplistas”. Sumiram as bandeirinhas azuis, vermelhas e brancas que por exemplo identificavam o bairro operário La Teja como território da esquerda há dois anos, no regresso à presidência de seu representante mais ilustre.

Tabaré respondeu à estagnação com um ajuste que teve mais apoio na oposição conservadora que entre seus companheiros. Segundo analistas, o presidente aferrou-se à defesa da Venezuela no Mercosul para não comprar outra briga com o setor mais numeroso de sua bancada no Congresso, controlado por Mujica. Preferiu o isolamento externo ao interno.

Reestruturação. Na sexta-feira, a Frente Ampla começou a apurar o resultado de uma votação interna que há uma semana reuniu 94 mil eleitores, 46% menos que em 2012. A principal meta do futuro líder do bloco será debelar o fogo amigo entre os 34 partidos ou facções da coalizão e estancar a perda na intenção de votos.

Tabaré teve 44% dos votos no primeiro turno em 2014. Segundo o Instituto Equipos, seu grupo obteria hoje 33%, contra 29% do principal rival, o Partido Nacional (Blanco), que na última eleição teve como candidato Luis Alberto Lacalle Pou, derrotado por Tabaré no segundo turno.

Outra pesquisa, do Factum, divulgada na sexta-feira, dá ao bloco governista 30% da intenção de votos, contra 25% dos “blancos”. “É a maior queda da história da Frente Ampla”, disse o diretor da consultora, Óscar Botinelli. Um fenômeno detectado por todos institutos é que os descontentes não migram para a oposição conservadora. Permanecem como indefinidos, o que sugere que poderiam voltar em caso de uma resposta da economia.

“Ainda aparecemos como principal força e temos maioria nas duas Casas do Congresso. Sabemos que a conjuntura econômica não é favorável e a população não vai estar festejando nas ruas o aumento do desemprego (7,9%) e da inflação (acumulada de 11% no últimos 12 meses)”, disse ao Estado a parlamentar mais próxima do ex-presidente Mujica, Lucía Topolansky, de 71 anos, sua mulher desde 2005.

A senadora do Movimento de Participação Popular, um dos grupos mais à esquerda dentro da Frente Ampla, é fiel ao estilo direto do marido. Ela reconhece que a fase difícil levou o governo “a ficar sem um peso” e admite uma disputa interna com a equipe econômica de Tabaré, “mas não uma fratura”. O grupo dela pressiona o presidente para que o ajuste atinja menos gastos sociais e mais as empresas que retiram dinheiro do país - sua proposta é passar a taxa de transferência de 7% para 12%. Ela também quer onerar proporcionalmente as heranças e reduzir exonerações fiscais.

“A equipe econômica teme que isso afugente investimentos. O debate interno é às vezes mais forte do que no Congresso com a oposição. Discutimos até a morte entre nós, mas depois há unidade de ação”, afirma a representante do grupo, que também tenta evitar a diminuição de gastos em educação nos próximos dois anos, parte do plano de Tabaré.

As diferenças com o governo se restringem à política interna. Topolansky se mostra “totalmente de acordo” com a chegada o quanto antes da Venezuela à presidência do Mercosul, como defende Tabaré. O país foi incluído no bloco em 2012, em consequência da pressão de Brasil e Argentina, então governados por Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, sobre Mujica. O Paraguai havia sido suspenso em razão do impeachment relâmpago contra Fernando Lugo.

“A entrada da Venezuela na época foi positiva para o equilíbrio de forças. Além disso, somos um país vendedor de comida e ninguém pagava o mesmo preço que eles”, argumenta a senadora. Ela atribui a instabilidade no país caribenho e a falta de pagamento à indústria uruguaia - principalmente a de laticínios - à queda no preço do petróleo. Topolansky teme que o impasse sobre a transferência da presidência leve à ruptura do bloco, “como ocorreu na Europa”. Mujica continua apoiando o projeto de Nicolás Maduro, embora em maio tenha deixado escapar que o considera “louco como uma cabra”.

O chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, emitiu na sexta-feira uma nota em que informou que seu país deixava vago o comando do Mercosul. “Não há hoje argumentos jurídicos que impeçam o passagem da presidência temporária à Venezuela”, dizia o comunicado. Paraguai, Brasil e Argentina, em diferentes graus, defendem o adiamento dessa transição ou que se salte o turno da Venezuela, sob alegação de que a instabilidade no governo de Maduro prejudicaria negociações como o tratado de livre comércio com a União Europeia.

Recíproca. Se a instabilidade na pequena economia uruguaia afetou a política de todo o continente, o contrário também ocorre. A crise econômica venezuelana contribuiu, segundo o sociólogo Agustín Canzani, para causar nos uruguaios o sentimento de “ampla inconformidade” refletido nas pesquisas de opinião, bem como queda no consumo de Argentina, Brasil, Rússia e China.

“Havia pouca consciência entre os eleitores da esquerda da possibilidade de uma queda tão abrupta. Eleições presidenciais hoje seriam equilibradas, mas isso está dentro do cálculo da Frente Ampla, que conta com uma melhora da economia até 2019”, avalia Canzani, professor de opinião pública da Universidad de la República, em Montevidéu.

O quadro antes da votação presidencial de 2019 para a esquerda melhoraria com a valorização do real, avalia Canzani, o que aumentaria a competitividade dos produtos uruguaios. Outra esperança é a recuperação argentina, agora prevista pelo governo local para 2017. Os dois vizinho uruguaios terão recessão neste ano - estima-se que o PIB argentino encolha 1%. Outro alívio esperado pelo governo de Tabaré relacionado ao exterior é um investimento de US$ 5 bilhões em uma terceira fábrica de celulose.

 

O economista Gustavo Licandro, que trabalhou para os “blancos” no governo de Luis Alberto Lacalle (1990-1995), considera que a esquerda falhou ao não investir em infraestrutura na época de bonança, quando o preço das commodities estava alto. Ele critica o aumento do funcionalismo de 50 mil para 63 mil empregados e a elevação do gasto público de uma média de 25% do PIB para 34%. “Nosso crescimento tinha como base o consumo interno e isso acabou, o que repercute na arrecadação. O ajuste é inevitável, mas o impasse ocorre porque a principal oposição a Tabaré é interna, são grupos ligados a Mujica”, afirma.

“Sem dúvida, é o momento mais delicado da esquerda desde o primeiro mandato de Tabaré, em 2005. Não são só diferenças internas sobre o ajuste. Houve também discussões sobre outros temas que não existiram nos dois primeiros governos da esquerda”, afirma o cientista político Antonio Cardarello, também da Universidad de la República.

Tabaré, por exemplo, comprou uma briga com a ala de Mujica e os sindicatos ao defender que trabalhadores da educação estão em atividade essencial, o que limita seu direito de greve. As associações de classe promoveram duas paralisações em seu segundo mandato, em um sinal de que a relação já não é amistosa por natureza. “O mais curioso é que a oposição apoia o ajuste fiscal. Ou seja, os partidos de centro-direita estão mais próximos de Tabaré que sua própria base”, reforça Licandro.

Tabaré chegou ao poder em 2005, deu lugar a José Mujica em 2010 e voltou em 2015. A tabelinha instalou o tema de uma “crise geracional” na Frente Ampla. Dentro de um grupo tão heterogêneo, o fogo amigo é tratado como “parte do jogo”, mas a ausência líderes jovens conhecidos é citada como preocupação número 1. O nome com maior densidade eleitoral na esquerda é Mujica, que chegaria à votação de 2019 com 84 anos.

“Ainda que o Uruguai seja um país de velhos, seria uma grande falha não incorporar gente mais jovem na disputa política”, disse Topolansky, a mulher do ex-presidente, que também já foi cogitada para disputar a indicação e tem 71 anos. O outro nome forte do grupo é o ministro da Economia, Danilo Astori, de 76 anos, mesma idade de Tabaré, que não pode concorrer à reeleição.

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