Isoladas, Farc viram ''párias da região''

Sem apoio de Chávez, grupo perde chance de diálogo após ataque a bomba em Bogotá

Ruth Costas, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Sempre que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) sofrem um duro golpe os colombianos se perguntam o mesmo: é o começo do fim da guerrilha? A questão voltou a ecoar nesta semana, após o presidente venezuelano Hugo Chávez - que já defendeu o reconhecimento das Farc como um "grupo beligerante" - admitir que sua luta "não tem mais razão de ser" na Colômbia de hoje.

Chávez concordou com a criação de uma comissão bilateral para monitorar o grupo na fronteira, embora não esteja claro quão efetiva será a medida. A mudança foi vista como mais uma evidência de que a guerrilha - com sua proposta de criar um Estado comunista pela via armada - perdeu o bonde da história. Pode ainda não ter sido derrotada do ponto de vista militar, mas já perdeu a guerra por apoio no plano interno e externo.

Até o líder cubano Fidel Castro tem feito apelos para que as Farc soltem seus sequestrados. Em 2008, ele denunciou "as condições cruéis" nas quais o grupo mantém seus reféns - embora Cuba não seja exemplo no tratamento de seus presos. A lista dos que tem criticado as Farc ainda inclui o equatoriano Rafael Correa e o boliviano Evo Morales.

"Todas essas condenações influenciam as Farc do ponto de vista ideológico e restringem suas opções logísticas", diz Luis Eduardo Celis, da Corporação Nuevo Arco Íris, organização que estuda o conflito.

Segundo analistas, foi por perceber esses limites que o líder da guerrilha, Alfonso Cano, fez uma proposta de diálogo para o presidente Juan Manuel Santos, antes da declaração de Chávez.

Cano está cercado. No momento, 5 mil soldados caçam o guerrilheiro na região de Tolima, Huila e Cauca. Nos últimos meses, vários integrantes do seu círculo de defesa foram mortos.

"Homem, negociemos!", disse Cano, em um vídeo. A abertura inicial de Santos para a oferta - com a imposição de condições como a libertação dos sequestrados - é explicada por dois fatores. Primeiro, os bilhões gastos no conflito e a cooperação militar americana conseguiram reduzir a guerrilha pela metade, mas as Farc ainda contam com 9 mil integrantes. Hoje, os EUA falam em cortar a ajuda e a Colômbia não pode gastar mais.

Segundo, o fato de os guerrilheiros terem uma fonte ininterrupta de recursos - o narcotráfico - tende a alargar o conflito. E Santos vinha indicando que o ideal, para ele, seria poder aplicar os recursos dessa guerra no desenvolvimento do país. "A única solução definitiva para o conflito colombiano é a negociação", diz Vicenç Fisas, da Escola de Cultura e Paz da Universidade Autônoma de Barcelona, que estuda o caso colombiano.

No passado, dois processos de paz foram manipulados pela guerrilha para se fortalecer militarmente. Nos anos 80, o presidente Belisário Betancur permitiu que as Farc formassem um partido político (a União Patriótica, dizimada por paramilitares). Nos anos 90, Andrés Pastrana concordou com a criação de uma área desmilitarizada para as negociações de paz, mas as Farc não pararam de sequestrar.

A diferença, agora, é a relação de forças. "É o Estado quem impõe as condições e a guerrilha deve aceitá-las", escreveu o colombiano Alfredo Rangel, especialista em segurança.

Santos tenta mostrar que quer construir uma nova Colômbia: nesta semana, encontrou-se com os juízes da Suprema Corte, desafetos do ex-presidente Álvaro Uribe, retomou as relações com Chávez, prometeu investir na área social e, finalmente, falou em paz com a guerrilha.

Na quinta-feira, porém, o atentado a bomba contra a Rádio Caracol foi um lembrete de que ainda há um longo caminho a ser percorrido até que a estratégia militar possa ser substituída por negociação. "Até que aqueles que dizem querer dialogar a paz demonstrem sua real vontade (de negociar), a porta do diálogo estará fechada", disse Santos. "A ordem é endurecer."

Até ontem, a polícia não havia identificado os autores do ataque. Se for confirmado que as Farc foram responsáveis, o diálogo não terá chances. "As Farc teriam mostrado que não mudaram", diz Fisas. Se o ataque for obra de grupos que querem minar a aproximação com o grupo, será um lembrete das dificuldades de uma negociação. "A bomba dificulta a saída negociada, cuja possibilidade só deve surgir no longo prazo", disse Celis.

Hoje, as Farc têm o apoio de apenas 2% da população colombiana. Em 2002, quando Uribe assumiu, controlavam um quarto do território do país. "O grupo pode não estar acabado, mas está muito debilitado. Se insistir na luta armada, todos perdem", afirmou Fisas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.