Isolados, EUA abrem porta para atacar sem a ONU

Uma semana depois de o presidente George W. Bush ter afirmado que chegara a hora de os países membros dos Conselho de Segurança das Nações Unidas "mostrarem as cartas" e dizerem o que pensam sobre Saddam Hussein, a Casa Branca mudou bruscamente seu plano de forçar a votação, ainda nesta semana, de uma nova resolução condenando o Iraque e preparou o caminho para ir à guerra sem o respaldo explícito da organização mundial. Diante da dificuldade de assegurar o mínimo de nove votos necessário para aprovar uma resolução que legitime um ataque contra o Iraque e da certeza do veto da França e da Rússia, o secretário de Estado Colin Powell admitiu as possibilidades de Washington pedir votação no início da semana que vem, ou retirar a proposta.Oficialmente, a administração não admitiu que recuou e procurou manter vivas as esperanças de um desfecho favorável na ONU. "Ainda estamos falando com os membros do Conselho de Segurança para ver o que é possível fazer a respeito de formar uma coalizão em torno de uma posição que não provocaria um veto", disse Powell, em depoimento a uma subcomissão de dotações orçamentárias no Congresso. Segundo ele, as opções, hoje à tarde iam de uma votação amanhã "a não ter uma votação".Na opinião dos estrategistas da administração, esta saída seria mais aconselhável e politicamente menos custosa do que a de atacar o Iraque depois de ter fracassado numa tentativa de garantir o apoio do CS, ou depois de ver uma resolução invalidada pelo veto francês ou russo.Não estava claro como ficará, nesse caso, o primeiro-ministro da Inglaterra Tony Blair, o mais próximo aliado do presidente americano e o único outro país a ter mobilizado um contingente considerável - de 30 mil soldados e dezenas de aviões e embarcações - para a guerra. Esta é uma dúvida importante, porque Blair precisa do respaldo da ONU para justificar seu alinhamento com Bush aos eleitores ingleses. Momentaneamente, hoje pela manhã a Casa Branca chegou a considerar a hipótese de Bush viajar a Londres ou a algum outro lugar fora dos EUA para um encontro com Blair.Mas o plano não prosperou.Powell rejeitou, por sua vez, hoje a noção de que os EUA tenham se isolado internacionalmente e listou a Inglaterra, Austrália, Bulgária, Espanha, Itália e oito países da Europa do Leste entre os aliados de Washington. Mas mesmo um amigo dos EUA, como o primeiro-ministro da Irlanda, Bertie Ahern, que visitou hoje a capital americana, deixou clara sua relutância em apoiar uma guerra contra o Iraque sem um mandato internacional. A Irlanda honra há 40 anos acordos que dão direito de pouso a aviões militares americanos em seu território. Mas Ahern, que enfrenta crescente oposição em casa à presença de aviões dos EUA em território irlandês, deixou claro que não apoiaria uma ação não autorizada pela ONU. Numa entrevista depois de ter encontrado Bush, ele contou ter dito ao líder americano que, "se não houver uma nova resolução, a Irlanda não pode engajar-se em atividade de apoio à ação militar , porque nós trabalhamos sob resolução da ONU".Perguntado sobre a razão da dificuldade do governo Bush de obter o respaldo dos seis países menores, entre eles o Chile e o México, que podem decidir o voto no Conselho de Segurança, o secretário de Estado disse que alguns países não compreendem a seriedade da decisão que tomararam em 8 de novembro passado, quando aprovaram a resolução 1441. Embora a Casa Branca tenha informado na quarta-feira que estava a apenas um voto dos mínimo de nove, na verdade os EUA não tinham assegurado sequer os votos do Chile e do México e tinham nas mãos um fiasco diplomático potencial, de grandes proporções.Referindo-se ao Chile e ao México, o subsecretário de Estado para Assuntos Políticos, Marc Grossman, disse na quarta-feira que países com assento no CS precisam aceitar "suas responsabilidades globais" e agir "como porta-vozes, protetores e defensores do sistema internacional".

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