AP Photo/Michel Euler
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Isolamento da Notre-Dame ameaça futuro de comerciantes locais

Desde o incêndio, só moradores e lojistas têm acesso aos arredores da igreja e muitos correm risco de fechar as portas

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2019 | 20h41

PARIS - Com expressão de preocupação no rosto, cerca de 30 comerciantes franceses se reuniram esta semana em um bar perto da catedral de Notre-Dame, em Paris. O incêndio que devastou a igreja na segunda-feira os forçou a fechar seus negócios.

Quase todos os restaurantes, lojas de souvenirs, floriculturas ou delicatessen na proximidade da catedral estão sem funcionar e seus donos, que se encontraram no bar Quasímodo - nome do inquilino mais famoso da igreja - estão desesperados.

“Normalmente recebemos muito turistas, mais de 500 por dia, mas desde terça-feira está tudo fechado”, lamenta Virginie Aranda, que tem um pequeno lugar no famoso mercado de flores de Ile de la Cité, o bairro parisiense onde está localizada a igreja, cujas torres continuam chamuscadas em razão do fogo.

A polícia instalou um cordão de isolamento ao redor de Notre-Dame impedindo que os curiosos e também os turistas cheguem a esta ilha natural no meio do Rio Sena e na qual, desde segunda, apenas moradores e lojistas têm acesso.

Como Virginie, outros que participaram do encontro temem que o amplo perímetro de segurança custe caro ao seu ganha-pão. “Tivemos um inverno difícil com os Coletes Amarelos e agora acontece isso”, lamentou Betty Toullier, também florista, ao se referir aos manifestantes que paralisam o centro da capital francesa todos os sábados desde novembro.

Para Patrice Le Jeune, presidente da Associação Comercial do bairro de Notre-Dame, que se reuniu com vários funcionários da prefeitura, as pitorescas ruas da ilha podem permanecer isoladas por várias semanas ou meses. “Não querem correr nenhum risco”, explicou ao grupo.

Para muitos parisienses, o labirinto de ruelas ao redor da catedral só abriga restaurantes caros e lojas de souvenirs baratos. Um clichê que irrita a maioria dos residentes e comerciantes do bairro, que muitas vezes vivem ou trabalham lá há décadas.

“Se esquecem que há uma igreja, mas também um bairro ao redor - a catedral é nossa igreja, nossos filhos foram batizados ali”, diz uma mãe de família que não quis ser identificada. Desde segunda-feira, ela dorme na casa de uma amiga já que todos os imóveis na sua rua, ao lado da catedral, foram esvaziados por medida de prevenção.

“É como uma cidadela”, diz Michel Mathieu, cuja avó abriu uma loja na Rua Arcole em 1921. Sua loja continua no mesmo lugar e oferece aos turistas recordações diferentes das de baixo custo vendidas por ambulantes. No outro extremo, o irmão de Mathieu abriu uma loja. E sua filha também tem uma loja a poucos passos dali.

Como os demais comerciantes, eles esperam que as seguradoras cubram suas perdas com as flores que murcharam ou com os produtos frescos que estragaram. Mas até o momento, o bairro não foi declarado como uma área de sinistro, condição indispensável para as seguradoras entrarem em jogo. E seus donos não podem pedir ajuda para compensar o desemprego forçado de seus empregados.

“Há empregos em risco!”, alerta Esther, que dirige um restaurante com três empregados em Quai des Fleurs. “Na terça e na quarta-feira ficamos fechados. Na quinta, abrimos, mas só atendi um cliente. Não vejo como vamos sobreviver vendendo apenas um café de ¤ 2,5.”

Patrice Le Jeune, que se reunirá nos próximos dias com o vice-prefeito e encarregado de turismo, quer pedir que sejam congeladas as contribuições previdenciárias e os impostos dos comerciantes afetados.

Mas  mesmo que essa ajuda seja aprovada, poderia chegar tarde demais para alguns. “Abrimos há quatro semanas”, conta François Monville, que decidiu instalar sua delicatessen no bairro de Notre-Dame depois de 15 anos morando no exterior com sua mulher. “A ideia era atender tanto os turistas quanto os parisienses”, explica. Mas com o aluguel e o empréstimo que tem que pagar “não poderemos prosseguir fechados por tanto tempo”. / AFP

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