Israel acusa França de anti-semitismo

O governo Ariel Sharon repreende a França. Ele a acusa de anti-semitismo. O vice-ministro israelense das Relações Exteriores, o rabino Michael Melchior, diz: "A França é o pior país ocidental em matéria de anti-semitismo". Não são palavras soltas no ar. O ministério israelense da Integração acaba de conceder a todo judeu francês que emigrou para Israel ajudas financeiras excepcionais, o que antes era dado somente para os judeus russos, considerados perseguidos pelas autoridades de Moscou. A opinião de Sharon é objetiva? É verdade que os incidentes são freqüentes. Foram calculados 320 no ano passado, o que é bem elevado, uma vez que a comunidade judaica na França é de apenas 600 mil pessoas - nos Estados Unidos, há 6 milhões de judeus. Além dos incidentes, há um estado de espírito, um sentimento anti-semita em evolução: uma certa linguagem (a palavra "youpin", de conotação racista para designar judeu, reapareceu). Pichações em muros na França contra os judeus e até mesmo glorificando Hitler. Em algumas regiões (leste e sul), tumbas de judeus são profanadas por jovens "neonazistas" (às vezes, até mesmo por simples cretinos e não por neonazistas). Trata-se de um anti-semitismo de tipo clássico, que emana da direita e da burguesia, dos meios católicos, tal como aconteceu durante o caso Dreyfus. O caso Dreyfus? Em 1894, um oficial francês judeu, o capitão Dreyfus, injustamente acusado de espionagem em prol da Alemanha, foi condenado à prisão, o que teve como conseqüência a divisão da França em duas: de um lado, os burgueses e os católicos, e do outro, os "vermelhos", os franco-maçons etc. Em 2002, nada lembra esse quadro. É claro que Jean-Marie le Pen (da extrema-direita) detesta os judeus, mas ele detesta o mundo inteiro. Além disso, não é mais a "direita" que pratica o anti-semitismo. É sobretudo a "esquerda" e maciçamente, principalmente em suas franjas extremas, pró-palestinas. Por exemplo, o jornal Le Monde publicou uma página inteira de um notável escritor da extrema esquerda, François Maspero, cuja conclusão é: "Como chamar o que vive o povo palestino senão de um apartheid? O exército israelense entra, sai, divide o território, devassa, bombardeia como e quando quer, os estreitos 19% de territórios teoricamente soberanos da Autoridade Palestina". A maior parte dos homens de esquerda é como François Maspero. É estranho: essa mesma esquerda, que esteve à frente da luta contra o anti-semitismo, acusa Israel (é verdade que Maspero responderia: "Não ataco os judeus. Ataco o atual governo de Israel"). Obviamente, há um segundo "viveiro" de anti-semitismo: são os emigrantes de origem muçulmana ou da região do Magreb. Esses emigrantes são inúmeros e turbulentos. Freqüentemente moram em bairros periféricos das cidades, bairros em que também moram judeus. Em épocas calmas, a coabitação entre judeus e árabes franceses, sem ser calorosa, não chega a ser violenta. Mas, nos momentos de tensão, multiplicam-se os incidentes de rua. Por exemplo, quando Sharon endureceu loucamente sua ação contra Arafat, ou também no dia seguinte aos atentados suicidas cometidos por muçulmanos contra Nova York (grande cidade de judeus). Não é necessário dizer que, nas duas "minorias", há elementos que fazem tudo o que podem para pôr fogo na fogueira: entre os judeus de Paris, algumas associações de jovens estão sempre com vontade de brigar "com os árabes". E obviamente, ao contrário, nas organizações muçulmanas, a propaganda dos "fundamentalistas" e dos hezbollahs de todas as espécies faz furor.

Agencia Estado,

09 Janeiro 2002 | 18h34

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