''Israel agiu para impedir um Estado palestino''

Rashid Khalidi. Historiador americano

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Os palestinos distanciam-se cada vez mais do sonho de conseguir seu país, os EUA são ainda a única superpotência e a Turquia pode começar a incomodar os países árabes. Esta é a análise da situação no Oriente Médio atual, feita pelo historiador de origem palestina, Rashid Khalidi. Nascido e criado em Nova York, nos últimos anos ele passou a ser considerado o maior intelectual árabe no Ocidente. A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estado.

Você escreveu no seu livro "Iron Cage", de 2006, que é cético com a possibilidade de ser criado um Estado palestino por causa de instituições militares-burocráticas dependentes da ocupação. Hoje aumentou a chance de nascer a Palestina?

Continuo cético com a possibilidade de um real Estado palestino ser criado nos territórios ocupados em 1967, com Jerusalém Oriental como capital. Os governos israelenses agiram continuamente para garantir a impossibilidade de um Estado palestino contínuo, viável e soberano. Isso foi feito por meio do enfraquecimento da economia palestina, a eliminação de uma liderança independente e da criação de assentamentos ilegais de uma forma que domine estrategicamente a Cisjordânia.

Ao mesmo tempo, uma matriz de controle sobre o movimento e outras atividades da população palestina foi adotada nas últimas quatro décadas, determinando quem pode sair e entrar e o que pode ser importado e exportado. Todas as decisões importantes dos palestinos são afetadas por esta matriz de controle. O estabelecimento de um Estado palestino real depende do completo desmantelamento dos assentamentos e da matriz. Mas os colonos e essa matriz tornaram-se cada vez mais poderosos e hoje formam um importante grupo de interesse da política israelense.

O premiê palestino, Salam Fayyad, pode ser considerado um líder tão bom como dizem analistas?

A Autoridade Palestina em Ramallah e a de Gaza (Hamas) não possuem soberania, jurisdição ou real autoridade a não ser em algumas cidades. Ambos têm uma legitimidade decrescente e apoio popular limitado por causa de suas respectivas estratégias - negociações sem fim de um lado (Fatah) e a chamada "resistência" do outro. Não creio que o povo palestino tenha a liderança que merecia.

Os países árabes e o Irã aceitarão a Turquia como líder regional?

A balança doméstica da Turquia, atualmente mais envolvida com o Oriente Médio, pode se mover por qualquer razão, e, se isso acontecer, tudo muda. Apesar disso, uma Turquia mais forte, rica e confiante passou a ter um papel mais adequado ao seu tamanho e poder. Isso pode incomodar as potências na região e especialmente os EUA, acostumados a uma Turquia obediente desde 1945, e também Israel. Mas a emergência turca pode também ameaçar as posições de Ira, Egito e Arábia Saudita.

O Brasil e a Turquia conseguem contrabalançar a forca das potências no Oriente Médio?

As pessoas antecipam mudanças que podem demorar anos. Os EUA são a única superpotência e isso continuará por muito tempo.

Por que o Oriente Médio não consegue se democratizar, como outras regiões do mundo?

Muitos culpam o islamismo, mais isso é um erro. Tenho duas explicações: o impacto destrutivo da renda do petróleo e do gás, que fortalecem o absolutismo das monarquias, e os contínuos conflitos fortalecem os serviços de segurança, o Exército e o Poder Executivo em detrimento da sociedade civil. Mas estas explicações são parciais.

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