Israel, amarrado à Cisjordânia

Algumas estratégias adotadas por aliados israelenses devem agradar aos líderes iranianos

Thomas L. Friedman*, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2014 | 02h06

Ocorreu-me um dia desses que o bilionário pró-Israel Sheldon Adelson e o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, têm algo em comum. Ambos estão tentando destruir Israel. Adelson, ao amar o país até a morte, e Khamenei ao odiá-lo mortalmente. E, agora, até o governador Chris Christie, de New Jersey, foi arrastado para a loucura.

Qual é a lógica? Simples. Os líderes do Irã querem que Israel seja destruído, mas não têm nenhum desejo, no meu entender, de usar uma bomba nuclear, já que isso os exporia à retaliação e à morte certa. Sua estratégia é mais sutil: fazer o possível para garantir que os israelenses permaneçam nos "territórios ocupados", conquistados na Guerra de 1967, que é como o Departamento de Estado se refere à Cisjordânia.

Ao apoiar militantes palestinos dedicados a destruir qualquer processo de paz, Teerã espera manter Israel atolado na Cisjordânia, com seus 2,7 milhões de palestinos, negando-lhes todo tipo de cidadania e impedindo o surgimento de um Estado que poderia reconhecer o país vizinho e viver em paz ao seu lado.

Quanto mais Israel ficar preso ali, mais os palestinos e o mundo pedirão a "solução de um Estado". Quanto mais resistirem a isso, mais isolados os israelenses ficam.

O Irã e o Hamas têm muitas evidências de que a estratégia está funcionando. A ocupação, que dura 47 anos, levou Israel a construir mais assentamentos ali e, com isso, parece ser a potência colonial mais ativa no planeta atualmente. Os 350 mil colonos israelenses na Cisjordânia reforçam essa visão ao alegar que sua presença não tem nada a ver com segurança, mas com um projeto de inspiração divina para reunir o povo judaico com sua pátria bíblica.

O resultado é um movimento crescente entre universitários e em organizações internacionais para isolar e deslegitimar o Estado judaico. Esse "movimento BDS" - para boicotar, desinvestir e sancionar Israel - está ganhando adeptos não só entre os não judeus nas universidades americanas, mas até mesmo dentro de algumas organizações judaicas universitárias.

O Irã não poderia ficar mais feliz. Quanto mais Israel afundar na Cisjordânia, mais o país fica deslegitimado e isolado, mais o mundo se concentra no colonialismo israelense e não no enriquecimento nuclear do Irã.

Agora, o Irã tem um aliado: Sheldon Adelson - o magnata de cassinos de Las Vegas e extremista de direita pró-Israel. Adelson doou cerca de US$ 100 milhões na última campanha presidencial para financiar candidatos republicanos com várias prioridades: deslegitimar os palestinos e evitar referências à Cisjordânia como "territórios ocupados" ou mencionar a ideia do governo americano de trocar terra por paz na região.

Caso o leitor não se lembre, a Coalizão Judaica Republicana (RJC, na sigla em inglês) fez um retiro em um cassino de Adelson em Las Vegas. O encontro foi batizado de "Primária Sheldon". Republicanos fizeram fila para competir por bênçãos e pelo dinheiro de Adelson, ou como colocou a revista online Politico: "O novo panorama político do dinheiro graúdo - no qual um punhado de doadores pode alterar dramaticamente uma campanha com um ou dois cheques - explica tanto a disposição de governadores em fazer peregrinações a Las Vegas quanto a obsessão por adivinhar as inclinações de Adelson para 2016".

Adelson personifica tudo que há de mais venenoso para nossa democracia e para Israel hoje em dia - oligarcas falastrões, usando quantias enormes de dinheiro para tentar dobrar o sistema à sua vontade.

Christie, em sua fala, referiu-se à Cisjordânia como "territórios ocupados" - como qualquer líder americano responsável faria. Isso, segundo o Politico, "provocou murmúrios na multidão". Alguns judeus republicanos explicaram a Christie, depois que ele terminou de falar, que ele havia cometido uma gafe terrível. Ele chamou uma coisa pelo seu verdadeiro nome e da maneira como o governo americano sempre chamou. A Cisjordânia deveria ser chamada de "territórios disputados" ou "Judeia e Samaria", a maneira como os judeus da linha dura preferem.

Segundo o Politico, Christie, apressadamente, arranjou um encontro com Adelson para explicar que havia se expressado mal e era um verdadeiro amigo de Israel. "O governador de New Jersey desculpou-se numa reunião privada, no escritório do magnata, pouco depois", disse o Politico. Adelson teria aceitado a explicação e o rápido pedido de desculpas de Christie.

Releiam essa frase e meditem. Não sei se Israel tem um parceiro palestino para uma retirada segura da Cisjordânia, ou se algum dia terá. No entanto, tenho certeza do seguinte: se Israel quer permanecer um Estado judeu e democrático, deveria fazer tudo o que pode para fortalecer esse parceiro ou agir unilateralmente para sair.

Porque tenho certeza de que quando relatos sobre a "Primária Sheldon" chegarem à mesa do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, em Teerã, um grande sorriso iluminará seu rosto e ele dirá a seus assessores: "Que Alá dê longa vida a Sheldon. Tudo está andando conforme os planos".

*Thomas L. Friedman é colunista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.