Israel ataca QG da Autoridade Palestina em Hebron

Helicópteros israelenses de ataque dispararam mísseis, nesta quinta-feira, contra um complexo fortificado da Autoridade Palestina, em Hebron, na Cisjordânia. As forças israelenses passaram três dias disparando contra o prédio com metralhadoras e alertaram que invadiriam o local se as pessoas que estavam ali dentro se recusassem a sair.Ainda hoje, Israel admitiu pela segunda vez em uma semana que suas forças "agiram de forma imprópria" ao atirar contra palestinos que violaram um toque de recolher imposto pelo Exército judeu. Três crianças ficaram feridas na cidade cisjordaniana de Qalqilya, entre elas uma de apenas nove anos, que sofreu danos cerebrais graves.Testemunhas palestinas e agentes de segurança disseram que os tanques dispararam após uma breve interrupção do toque de recolher, que havia sido negociado com as autoridades israelenses para permitir que as crianças fizessem as provas finais na escola. Aparentemente, após verem os estudantes nas ruas, algumas pessoas saíram de casa para comprar suprimentos nos mercados da cidade.De acordo com o Exército israelense, seus soldados abriram fogo contra as crianças. O porta-voz da Administração Civil, major Peter Lerner, confirmou que a intenção era levantar o toque de recolher para os estudantes.Em 21 de junho, o Exército revelou que seus soldados mataram quatro palestinos "por engano", inclusive três crianças, em circunstâncias similares, após um rumor de que o toque de recolher fora brevemente interrompido. Enquanto isso, os palestinos mostravam-se irritados com as mais recentes declarações de Bush.PazOs planos de Bush para levar a paz à região revelados na segunda-feira centralizaram-se em um pedido para que novos líderes palestinos "não comprometidos com o terror" tomem o poder. Desde então, Bush continuou enfurecendo os palestinos ao ameaçar negar ajuda humanitária norte-americana aos palestinos e ao recusar-se a descartar a possibilidade de ações militares contra Yasser Arafat.E se o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, viajar ao Oriente Médio em breve, o porta-voz ministerial Richard Boucher já avisou que o chanceler norte-americano não tem planos de reunir-se com o líder palestino. Tais desdobramentos levaram assessores de Arafat a acusar Bush de ser imprudente, dobrar-se aos interesses de Israel e piorar a situação na região.Bush disse hoje que "não colocará dinheiro em uma sociedade" dominada por líderes corruptos. "E eu suspeito que outros países também não o farão", proferiu o presidente norte-americano. Assessores de Bush informaram que o presidente se referia à promessa de ajuda internacional, se reformas democráticas forem realizadas. Os palestinos alegam que o bloqueio do dinheiro pode ameaçar a concretização das reformas exigidas por Bush."Atrasar a ajuda da comunidade internacional também retardaria as reformas que nós já iniciamos dentro de nossas organizações e setores, especialmente nos sistemas de saúde e educação", disse Jibril Rajoub, chefe de segurança da Autoridade Palestina na Cisjordânia.EscombrosAs recentes operações militares israelenses para caçar palestinos suspeitos de atentados contra israelenses danificaram ainda mais a já destruída infra-estrutura palestina, quase toda reduzida a escombros depois de uma campanha militar de um mês e meio iniciada em março.Rajoub disse que apenas a reconstrução das instituições de segurança custará algo em torno de US$ 20 milhões. "Quando falamos sobre o aparato de segurança palestino, falamos sobre um sistema de segurança totalmente destruído e que agora necessita de equipamento, treinamento e infra-estrutura", disse Rajoub.Os palestinos traçaram esta semana os planos para reformas radicais nos sistemas financeiro, judiciário e de segurança. As medidas começaram a ser trabalhadas depois de Bush, palestinos, israelenses e a comunidade internacional terem pedido uma reforma na Autoridade Palestina.?Diplomacia?Hoje, Arafat assinou as ordens necessárias para combinar e reduzir o número de agências de segurança e colocá-las sob controle do Ministério do Interior. Durante uma reunião de cúpula dos líderes do Grupo dos Oito (G-8) no Canadá, Bush foi perguntado se sua doutrina antiterrorismo - que deixa aberta a possibilidade de ações militares norte-americanas contra Estados acusados de fomentar terroristas - seria aplicada no caso de Arafat. "Nunca descarto a possibilidade militar. Todas as opções estão disponíveis", afirmou. Porém, segundo ele, os EUA estão utilizando agora a "pressão diplomática".Tratar Arafat da mesma forma com que foram tratados os líderes afegãos que protegeram Osama bin Laden é perigoso, alertou Rajoub. "A Autoridade Palestina não é o movimento Taleban", salientou. "Já é demais para os palestinos aturar um Exército (israelense) armado com o arsenal norte-americano", lembrou o secretário de gabinete Ahmed Abdel Rahman. "Se o presidente Bush pretende fazer o que disse, será um ato imprudente que causará muitos danos à região."Uma campanha contra a Autoridade Palestina, prosseguiu Abdel Rahman, é muito mais fácil que lutar contra o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, ou contra o lobby judeu junto ao governo norte-americano.O porta-voz do Ministério da Defesa de Israel, Yarden Vatikai, reduziu a importância das palavras de Bush sobre a utilização do Exército dos Estados Unidos como opção. "Não creio que alguém esteja falando sério sobre a opção militar", disse Vatikai. "Creio que ele (Bush) entende muito bem que a Autoridade Palestina é dominada pelo terror dos pés à cabeça."Em Hebron, oficiais israelenses disseram que cerca de 150 pessoas que estavam dentro do complexo governamental palestino na cidade se renderam, inclusive 20 foragidos, durante breves interrupções do cerco de Israel ao prédio. De acordo com os oficiais, cerca de 40 pessoas, entre as quais cerca de 15 supostos militantes procurados, continuavam dentro do complexo nesta quinta-feira.Hebron é um dos sete principais centros populacionais palestinos da Cisjordânia que foram rigidamente cercados pelo Exército de Israel após dois atentados suicidas que na semana passada deixaram 26 mortos em Jerusalém. Pelo menos 700 mil palestinos estão confinados em suas casas enquanto as forças israelenses procuram por armas e efetuam prisões de suspeitos. "Sabemos que algumas pessoas procuradas estão lá dentro e pretendemos prendê-las", disse o porta-voz do Exército, brigadeiro general Ron Kitrey à Rádio do Exército de Israel. "Preferimos fazê-lo sem luta mas, se for necessária, haverá uma."O complexo governamental palestino em Hebron serviu ao Exército britânico quando este controlava o protetorado da Palestina até 1948. Em seguida, o local foi ocupado pelo Exército da Jordânia. Em junho de 1967, Israel tomou a área e abrigou seus soldados no local. Israel passou o controle do complexo aos palestinos em 1997.

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