Israel autoriza 238 casas em Jerusalém Oriental

Segundo analistas, anúncio de construções em região palestina na prática representa o fim do diálogo direto de paz; Casa Branca diz estar 'decepcionada' com Netanyahu

Nathalia Watkins, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Em meio à crise no processo de paz, o Ministério de Habitação israelense publicou uma licitação para a construção de 238 casas em dois bairros de Jerusalém Oriental: serão 158 unidades em Ramot e 80 em Pisgat Zeev. O anúncio causou revolta entre os palestinos e analistas de ambos os lados afirmam que a decisão representa o fim do processo de paz na região.

"Esse anúncio é vergonhoso e, sem dúvida, levará ao fim das negociações", disse ao Estado Avraham Sela, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. "O mundo cansou desse jogo duplo do premiê Binyamin Netanyahu. Ele conta que busca a paz e não é capaz de garantir nem mesmo o congelamento de construções."

O anúncio de ontem é o primeiro desde março, quando Israel anunciou novos assentamentos na região em meio à visita do vice-presidente dos EUA, Joe Biden. À época, a decisão foi criticada pela Casa Branca.

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, P. J. Crowley, afirmou estar "decepcionado" com Israel. "Esse anúncio é contrário a nossas intenções para retomar o diálogo direto."

A Autoridade Palestina, por sua vez, subiu o tom com o governo Netanyahu. O principal negociador palestino, Saeb Erekat, acusou Israel de querer "liquidar qualquer possibilidade" de retomada das negociações com a Autoridade Palestina.

Tanto Ramot quanto Pisgat Zeev foram ocupados por Israel em 1967. Hoje, os bairros juntos têm cerca de cem mil habitantes. A aparência das regiões é a mesma de outras áreas residenciais de Jerusalém. As posições políticas e religiosas dos judeus que lá vivem também: religiosos ou seculares, a maioria é tida como "moderada" e não considera se considera "colono".

A imprensa israelense deu destaque às novas construções apenas nas versões de seus sites em inglês. Israel considera essas regiões de Jerusalém parte de sua "capital eterna e indivisível".

Apesar da moratória de dez meses imposta às construções na Cisjordânia não ter incluído Jerusalém, na prática novos projetos na cidade não vinham sendo anunciados até ontem.

Estado binacional. No início da semana, Netanyahu propôs um novo congelamento nas construções na Cisjordânia caso a Autoridade palestina reconheça Israel como o Estado judeu, proposta que foi recusada pelos palestinos.

"É possível reconhecer a existência de Israel, mas seu caráter quem decide é o seu povo, não os palestinos", diz o especialista Hanna Siniora.

O analista também acredita que, caso os EUA não consigam pressionar Israel a renovar a moratória, o anúncio de ontem marcará o fim das negociações e da solução de dois Estados. "Teremos de negociar as bases de um país binacional", conclui Siniora.

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