Israel bombardeia e ocupa QG de Arafat

Tropas israelenses invadiram nesta sexta-feira o complexo de escritórios do presidente da Autoridade Palestina (AP), Yasser Arafat, em Ramallah, e bombardearam vários prédios, inclusive o de três andares onde ele se abriga, em uma sala sem janelas que é uma espécie debunker. Todo o conjunto foi tomado, exceto o edifício onde Arafat está com sua guarda pessoal. O líder palestino está confinado em Ramallah desde dezembro pelas tropas israelenses que cercam a cidade e outros pontos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, territórios ocupados em 1967 porIsrael.Enquanto ele declarava à imprensa árabe que preferiria "morrer como um mártir a render-se", as forças de segurança da AP e sua guarda pessoal (a Força 17) resistiam ao avanço dos soldados e mais de 20 tanques no complexo, conhecido comoMutaqa. Um palestino foi morto, 25 ficaram feridos e 60 foram presos. Os militares passaram de uma dependência a outra abrindo buracosnas paredes, chegando cada vez mais próximo de Arafat e seus guardas, com quem trocaram tiros. Eles cortaram a luz e as linhas telefônicas do complexo.O Exército entrou em Ramallah na madrugada, depois de uma reunião do gabinete do primeiro-ministro Ariel Sharon para debater uma ofensiva de grande envergadura nos territórios, emresposta a atentados suicidas que mataram mais de 30 israelenses nos últimos dias. O toque de recolher foi imposto na cidade e o abastecimento de água e luz foi prejudicado. Ao todo, morreram hoje em Ramallah cinco palestinos - entre os quais uma moça de 22 anos e um homemde 60 que estavam na rua - e dois soldados israelenses.Sharon declarou Arafat um "inimigo" e anunciou o envio dos tanques "porque ele não pôs fim aos atentados suicidas". Arafat, por sua vez, acusou-o de promover a invasão como resposta à proposta de paz da Liga Árabe, aprovada quinta-feira. Sharon anunciou que o líder palestino seria completamente isolado e deixou em aberto a possibilidade de expulsá-lo dos territórios ocupados, numa segunda etapa da operação. O Exército convocou mais 20.000 reservistas, a maior chamada em uma década.À tarde, um novo atentado, em Jerusalém Ocidental, matou dois israelenses e a militante suicida que o promoveu e feriu 20 pessoas. Altos funcionários israelenses insistiram em que não estavam tentando matar Arafat ou causar algum dano físico a ele e o secretário norte-americano de Estado, Colin Powell, afirmou em Washington que Sharon lhe prometeu que Arafat não seriamachucado, apenas isolado.Em Beirute, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdelaziz - cujo plano de paz com Israel foi aprovado pelo mundo árabe na quinta-feira, já havia anunciado ter obtido essagarantia do governo norte-americano, mas acrescentou: Se ele for removido ou não, a resistência à ocupação continuará. "Todo palestino é um Yasser Arafat", disse Abdullah.A tomada do QG de Arafat e os atentados parecem ter posto por terra os esforços do enviado especial dos EUA, Anthony Zinni, para mediar um cessar-fogo. Mas ele permanece na região paratentar um acordo. Na noite de quinta-feira, quando era iminente um ataque israelense, Arafat declarara estar disposto a um cessar-fogo "imediato e incondicional", mas Israel retrucou que ele prometera isso antes e não cumprira.As cenas da entrada dos tanques na sede da AP em Ramallah provocaram reações inflamadas na Cidade de Gaza - onde um protesto reuniu milhares de pessoas, incluindo os líderes do grupo islâmico Hamas, responsável por vários atentados em Israel- e nos países árabes.A polícia antidistúrbios da Jordânia usou gás lacrimogêneo para conter centenas de refugiados palestinos que pretendiam marchar até Amã para pedir a expulsão do embaixador de Israel. A Síria conteve com canhões de água protestos de refugiados perto de Damasco. Houve protestos ainda no Egito, nos Emirados Árabes Unidos e no Líbano.

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