Israel calculou calorias de alimentos enviados a Gaza

Ministério da Defesa admite ter usado 'fórmula matemática' para evitar desnutrição sem permitir entrada de bens de luxo

JERUSALÉM, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2012 | 03h04

O Exército israelense calculou o número mínimo de calorias que os moradores da Faixa de Gaza necessitariam consumir para não ficarem desnutridos durante o bloqueio imposto ao território palestino entre 2007 e meados de 2010. É o que afirma documento do Ministério da Defesa divulgado por ordem de um tribunal.

Críticos alegam que o documento é prova de que Israel limitou o abastecimento de comida para pressionar o Hamas, grupo militante anti-israelense que assumiu o poder da Faixa de Gaza em meados de 2007.

O major Guy Inbar, porta-voz do Exército de Israel, afirmou na quarta-feira que uma fórmula matemática foi concebida para identificar as necessidades alimentares dos palestinos e evitar uma crise nutricional em Gaza. No entanto, ele acrescentou que Israel nunca utilizou a fórmula para restringir o fluxo de alimentos para Gaza.

O grupo de defesa dos direitos humanos Gisha afirma que Israel calculou as necessidades calóricas da população de Gaza para restringir a quantidade de alimentos e produtos de primeira necessidade durante aqueles três anos.

Israel impôs o bloqueio depois de identificar Gaza como "território hostil" em setembro de 2007, depois que o Hamas assumiu o controle daquela faixa de território. Para debilitar os militantes, Israel estabeleceu "severas restrições" para os civis, incluindo a limitação de produtos alimentícios.

Israel insistiu que o bloqueio era necessário para enfraquecer o Hamas, mas os críticos acusam o governo israelense de ter prejudicado mais de 1,15 milhão de pessoas em Gaza na sua tentativa de fragilizar o Hamas, que acabou fracassando.

No cálculo matemático, Israel utilizou diretriz da Organização Mundial da Saúde sobre o consumo médio diário de alimentos, que estabelece a quantidade de 2.279 calorias por pessoa.

"O objetivo oficial foi uma 'guerra econômica' para paralisar a economia de Gaza e, de acordo com o Ministério da Defesa, pressionar o governo do Hamas", afirmou o Gisha.

O Ministério da Defesa entregou o documento sobre o cálculo feito para o Gisha somente depois de o grupo entrar com uma petição com base na Lei de Liberdade de Informação.

Israel também teria usado diretrizes secretas incompreensíveis para estabelecer a diferença entre necessidades humanitárias e produtos não essenciais considerados de luxo.

Como resultado, os burocratas militares impuseram um bloqueio que permitia a entrada de salmão congelado e iogurte com baixo teor de gordura no território controlado pelo Hamas, mas proibia coentro ou café instantâneo. O Hamas, por outro lado, conseguiu aplacar os efeitos do bloqueio criando uma rede de túneis subterrâneos através dos quais eram contrabandeados alimentos, armas e outros produtos do Egito a preços inflados.

Embora o embargo tenha paralisado a economia de Gaza, em nenhum momento os observadores identificaram uma crise humanitária no território, onde os moradores dependiam muito da ajuda alimentar internacional. Israel foi forçado a abandonar o bloqueio diante da forte pressão internacional e depois de um incidente com uma flotilha internacional que tinha como objetivo romper o bloqueio, em maio de 2010.

Desde então, produtos, de um modo geral, entram livremente em Gaza vindos de Israel, mas material de construção ainda está proibido, pois Israel alega que os militantes podem usar artigos como tubos e concreto em ataques contra comunidades israelenses ao sul do país. / AP

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