Israel comemora 54º aniversário com medo

Israel não viveu um 11 de setembro, um único episódio cataclísmico. É mais como uma tortura chinesa, um atentado suicida à bomba depois do outro, lentamente minando a alma da nação. O resultado é o mesmo.Ao comemorar nesta quarta-feira seu 54º aniversário, Israel está em guerra, e seu povo questiona se a vida um dia será como antes. No passado, Israel celebrava seu aniversário com festas animadas, muitas vezes com arrogância e orgulho militar, ocasionalmente com uma sóbria introspecção.Este ano, existe confusão, frustração, e um medo constante, perturbador. Desde junho último, 140 israelenses morreram em atentados suicidas à bomba em discotecas, cafés, ônibus, estações ferroviárias, centros comerciais e, finalmente - no incidente de 27 de março, que instigou a maciça reocupação de cidades palestinas -, num salão de festas de um hotel onde israelenses e turistas judeus participavam de uma ceia que marcava o início da Páscoa judaica.Muitos outros morreram em emboscadas contra carros, por franco-atiradores, bombas à beira de estradas. O número de mortos no lado palestino é bem mais pesado - mais de 1.500 em 18 meses de confrontos, comparados com os 468 israelenses."Entre um funeral e o próximo, entre um alerta de bomba e outro, as tradicionais celebrações têm continuar, mas o coração não se alegra", escreveu o colunista Yoel Marcus no jornal Haaretz. A cidade de Haifa cancelou as festividades oficiais temendo atos terroristas. Tel Aviv decidiu realizar sua tradicional festa na frente da Prefeitura, mas com fogos de artifício menos barulhentos."Barulhos não seriam corretos em nossa sensível situação", ponderou o chefe do Departamento de Cultura, Yaacov Mandel. O medo virtualmente esvaziou as ruas comerciais de Jerusalém, normalmente cheias de atividades nesta época do ano.Cafés, onde jovens israelenses passavam o tempo conversando, nem se preocupam em colocar mesas nas calçadas. Dezenas de lojas fecharam. Outras anunciam grandes liquidações. Policiais armados com submetralhadoras patrulham cada entrada do bairro, que tem sido repetidamente alvejado.A maioria dos restaurantes tem guardas particulares nas portas. O Caffit, um café da moda na Colônia Germânica, onde clientes pegaram um homem-bomba antes de ele detonar os explosivos, instalou câmeras de segurança e uma grossa tela de vidro à prova de bala em torno de sua área externa com mesas."Os ataques se tornaram rotineiros. Você acorda de manhã e se pergunta onde foi a explosão à noite e onde será o ataque do dia. É uma questão de tempo, não de se, mas de quando", disse Ronen Harbouie, gerente da Pizzaria Sbarro, que foi atacada por um homem-bomba em agosto último. Quinze clientes foram mortos."Tenho 25 anos, e não saio para me divertir à noite há seis meses", afirmou Harbouie, debruçado sobre a mesa de seu restaurante quase vazio. "Isto não é jeito de viver a vida. Eles nos amarraram. Eles controlam nossas vidas".Escolas cancelaram neste ano os passeios da primavera. Pais se dispuseram a pagar guardas permanentes nas entradas das escolas. Uma pesquisa entre secundaristas de Jerusalém mostrou que 75% deles têm saído menos ultimamente.A deterioração da situação tem levado alguns a questionar o futuro de Israel. A mesma sondagem entre 476 estudantes, tanto judeus quanto árabes israelenses, revelou que apenas 54% dos estudantes judeus estão certos de que Israel existirá em 50 anos.Entre os estudantes árabes, 28% dizem que Israel deixará de existir até lá, e outros 26% pensam que o Estado judeu pode desaparecer. Israelenses se descobrem lutando com contradições. Outra pesquisa publicada no fim de semana pelo diário Maariv mostrou o primeiro-ministro Ariel Sharon com um índice de aprovação de 61%, e revelou que a campanha militar lançada na Cisjordânia tem o apoio de 75%.Ainda assim, a mesma sondagem do Maariv mostrou que a maioria dos israelenses apóia um Estado palestino e a iniciativa de paz saudita, que pede a completa retirada israelense dos territórios ocupados em 1967 em troca de uma ampla paz com os Estados árabes, à qual Sharon se opõe enfaticamente.A ofensiva na Cisjordânia, que para Israel é uma operação para destruir a infra-estrutura terrorista e pôr fim aos ataques suicidas a bomba, provocou uma onda de patriotismo. Observadores não se lembram de ter visto tantas bandeiras israelenses em varandas e carros.Jornais noticiam que reservistas do Exército se apresentam para o dever com um entusiasmo incomum. Ao mesmo tempo, mais de 300 soldados e oficiais das Forças Armadas se recusaram publicamente a servir na Cisjordânia nos últimos meses.Em programas de entrevista da tevê, parlamentares direitistas falam sobre a transferência em massa de palestinos e a punição das famílias dos atacantes suicidas, enquanto eminentes juristas advertem que oficiais do Exército podem ser acusados de crimes de guerra no recém-criado Tribunal Penal Internacional, em Haia.O colapso do processo de paz, que parecia tão promissor na década de 90, e a retomada da guerra "levou ao desapontamento e frustração, e um sentimento de que não importa o que façamos, não podemos ver muita esperança", disse Uzi Arad, do Centro para Estudos Interdisciplinares de Herzliya."Mas o povo israelense é um povo resistente", considerou Arad. "A longo prazo iremos vencer. Se não vencermos, vamos perecer. Mas o povo não espera resultados rápidos."Resistência e reconstrução são outro tema na teia de contradições. No centro de Jerusalém, ainda existem marcas de balas da guerra de independência de 1948, mantidas como monumento de uma era heróica. Mas os danos causados pelos atentados a bomba palestinos são sempre rapidamente reparados.Com a opinião pública mundial se voltando contra eles, israelenses reclamam de injustiça e de serem tratados com dois pesos e duas medidas, um lamento que Arad admite é um eco de séculos de perseguição contra os judeus.As críticas a Israel "importam, machucam. Mas nascemos sabendo que isto tem sido nossa situação histórica", afirmou Arad, que foi assessor do ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.Sarit Haddad, uma popular cantora que representará Israel este ano no festival de música Eurovision, disse que o isolamento de Israel fez aumentar sua determinação. "Quero muito vencer. A questão é que todo o mundo está contra nós, e este é o único problema", afirmou.

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