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Israel contra-ataca o Irã no irromper da guerra das sombras

Ataques representam uma nova escalada na guerra das sombras entre o Irã e Israel, que ameaça virar confronto mais amplo

David M. Halbfinger, Ben Hubbard e Ronen Bergman / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2019 | 08h00

JERUSALÉM - Israel realizou uma série de ataques pelo Oriente Médio nas últimas semanas para impedir que o Irã forneça aos seus aliados árabes mísseis guiados com precisão, drones e outras armas sofisticadas que possam desafiar suas defesas.

Os ataques representam uma nova escalada na guerra das sombras entre o Irã e Israel, que ameaça desencadear um confronto mais amplo.

Em um período de 18 horas no fim de semana, um ataque aéreo israelense matou dois militantes iranianos treinados na Síria, um drone explodiu um escritório do Hezbollah nos subúrbios do sul de Beirute e um ataque aéreo em Al-Qaim, no Iraque, matou um comandante de uma milícia iraquiana apoiada pelo Irã.

Israel acusa o Irã de tentar estabelecer uma linha de suprimento de armas através do Iraque e do norte da Síria para o Líbano. Os ataques, dos quais Israel admitiu publicamente apenas um, visam deter o Irã e sinalizar para seus representantes que Israel não tolerará uma frota de mísseis inteligentes em suas fronteiras, disseram autoridades e analistas.

“O Irã está criando algo aqui na região”, disse Sima Shine, ex-chefe de pesquisa da inteligência israelense, agora estudioso do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, em Tel-Aviv. “O que mudou é que o processo chegou a um nível em que Israel tem que agir de forma diferente”.

Promessa de retaliação iraniana

Autoridades iranianas disseram que os ataques israelenses não ficarão sem resposta. O general Qasem Soleimani, comandante da Força Quds do Irã, que supervisiona operações militares secretas fora do Irã, disse no Twitter que “as ações sionistas são insanas e serão as últimas”.

Enquanto o Irã não reconheceu publicamente a transferência de tecnologia de mísseis, um iraniano com conhecimento dos esforços regionais do Irã disse que no ano passado o país mudou seu foco de treinar os agentes de suas tropas para a batalha na Síria e no Iraque para equipá-las com alta tecnologia, armas e treinamento.

Líderes de todos os lados dizem que não querem uma guerra total, mas o ritmo acelerado dos violentos ataques, muitas vezes com drones baratos e outras tecnologias secretas, levantou a possibilidade de que até mesmo um pequeno ataque poderia se transformar em um conflito maior.

E insultos públicos, ameaças de poder militar e política interna estão contribuindo para uma atmosfera de volatilidade e provocação.

Israel reconhece ataque na Síria

Israel admitiu a realização do ataque aéreo na Síria no sábado, que segundo se disse, foi para impedir militantes de lançar um drone carregado de explosivos contra Israel.

A explosão do drone perto de Beirute no início do domingo destruiu o que as autoridades israelenses descreveram como maquinário vital para o esforço de produção de mísseis de precisão do Hezbollah. A responsabilidade de Israel por esse bombardeio, cujo objetivo foi relatado pela primeira vez pelo Times de Londres, foi confirmada por dois funcionários informados sobre a operação.

No Iraque, bases pertencentes a grupos paramilitares apoiados pelo Irã foram atacadas repetidamente nas últimas semanas, e seus líderes acusaram Israel, dizendo que drones israelenses atingiram seus veículos em Al-Qaim, matando um comandante.

Israel realizou pelo menos um dos ataques, em uma base ao norte de Bagdá em 19 de julho, e autoridades dos EUA disseram que Israel realizou outros.

Na quarta-feira, o exército libanês disse ter disparado contra dois dos três drones israelenses que violaram o espaço aéreo libanês antes de retornar a Israel. As explosões ressaltam como a expansão oportunista do Irã em grande parte do Oriente Médio enfrenta uma forte resposta israelense.

Israel amplia operações no Oriente Médio

“O teatro de operações foi ampliado por Israel quanto à mira de seus ataques”, disse Randa Slim, analista do Instituto do Oriente Médio em Washington. “Não se trata mais da presença iraniana na Síria. É sobre a rede do Irã na região.”

Durante anos, como a instabilidade e o conflito enfraqueceram os estados árabes, o Irã se instalou, construindo fortes laços com as forças locais que se beneficiam de seu patrocínio, enquanto expandem sua influência e ampliam a ameaça a Israel.

O Irã foi pioneiro nessa abordagem ao instalar o Hezbollah na força militar mais formidável do Líbano, com dezenas de milhares de combatentes treinados e um arsenal que se acredita contenha mais de 100 mil foguetes e mísseis apontados para Israel.

Os esforços de Israel para impedir a expansão iraniana nos últimos anos têm se concentrado principalmente na Síria, onde Israel realizou mais de 200 ataques aéreos desde o início de 2017 contra supostos comboios de armas, bases e outros locais associados ao esforço de guerra iraniano.

Ruptura de 'regras não escritas' em conflitos

Israel evitou principalmente matar combatentes do Hezbollah na Síria e atacar dentro do Líbano, o que poderia ter provocado contra-ataques. Isso levou a uma compreensão não escrita - muitas vezes chamada de regras do jogo - sobre onde e como o conflito iria e não iria acontecer.

Os ataques do último fim de semana pareciam quebrar as regras, matando dois combatentes do Hezbollah na Síria e atingindo o coração de um reduto do Hezbollah em Beirute.

O aumento das temperaturas e brutais declarações públicas em ambos os lados, que parecem destinadas tanto para o público doméstico quanto para o outro.

Provocação ao Irã em redes sociais

As forças armadas de Israel começaram a provocar seus adversários nas mídias sociais: depois do ataque aéreo na Síria, ridicularizaram Soleimani.

Na terça-feira, foi lançada uma conta no Twitter em persa para tentar prejudicá-lo com o público iraniano.

Dirigindo-se a seus seguidores no fim de semana, Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, prometeu retaliar, bradando sua determinação em evitar que ataques no Líbano se tornassem frequentes.

“Nós, na resistência islâmica, não vamos permitir esse tipo de caminho, não importa o custo!”, disse ele. Ele não explicou como ou quando suas forças responderiam.

“Sugiro a Nasrallah que se acalme”, respondeu o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, de Israel, em tom de zombaria na terça-feira. “Israel sabe como se defender e retribuir a seus inimigos. Digo o mesmo a Qasem Soleimani: tenha cuidado com suas palavras e mais ainda com suas ações.”

Resposta israelense ao Irã

Autoridades e analistas disseram que o recente aumento nos ataques, e sua disseminação para o Iraque e o Líbano, vieram em resposta a ajustes na estratégia do Irã.

Um envolveu os esforços de Soleimani para manter linhas de suprimentos para remessas de armas e equipamentos do Irã. Até cerca de um ano atrás, de acordo com um alto funcionário de inteligência do Oriente Médio, o Irã usava aviões comerciais iranianos ou sem identificação, que voavam para o aeroporto de Damasco para chegar às unidades do Hezbollah ou da Força Quds na Síria.

Mas repetidos ataques aéreos israelenses levaram o Irã a redirecionar suprimentos através de aeroportos no norte da Síria.

Quando Israel atingiu esses campos também, Soleimani mudou, estabelecendo uma rota terrestre. Essa rota vai do Irã até o Iraque, onde motoristas e veículos são frequentemente trocados para escapar da vigilância, antes de cruzar para o norte da Síria.

O ataque israelense em 19 de julho na base de Amerli, ao norte de Bagdá, atingiu um carregamento de mísseis guiados para a Síria. Foi a primeira vez que Israel realizou um ataque aéreo no Iraque desde que destruiu um reator nuclear perto de Bagdá em 1981, quando Saddam Hussein estava no poder./ Tradução de Claudia Bozzo

 

 

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