Israel e Hamas são pressionados a aceitar trégua

França propõe cessar-fogo de 48 horas para envio de ajuda humanitária a Gaza; os dois lados indicam que podem ceder

Michel Gawendo, Sderot, Israel, O Estadao de S.Paulo

31 de dezembro de 2008 | 00h00

Israel deu ontem os primeiros sinais de que pode ceder à pressão internacional e aceitar uma trégua depois de quatro dias de intensos bombardeios aéreos contra a Faixa de Gaza, que já mataram pelo menos 384 palestinos e deixaram 1.600 feridos. O grupo islâmico Hamas, que controla o território palestino e vem disparando dezenas de foguetes contra cidades israelenses, também parece estar disposto a debater um cessar-fogo.Israel iniciou no sábado sua maior campanha militar contra Gaza desde 1967, quando conquistou o território do Egito. O objetivo declarado da ação é acabar com os disparos de foguetes do Hamas contra o sul do país. O objetivo da trégua seria a abertura de corredores de entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, onde 1,5 milhão de moradores sofrem falta de alimentos e remédios e dependem da assistência internacional.Segundo autoridades israelenses, o chanceler francês, Bernard Kouchner, conversou ontem por telefone com o ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak e propôs uma trégua de 48 horas para a entrada de ajuda humanitária em Gaza. O governo francês informou que a chanceler de Israel, Tzipi Livni, viajará a Paris amanhã para debater a trégua. "Queremos ver comboios de ajuda humanitária e estamos trabalhando com todas as partes internacionais para facilitar esse objetivo", disse o porta-voz do governo israelense, Mark Reguev. "Ao mesmo tempo, é importante manter a pressão sobre o Hamas, não dar tempo para ele se reorganizar", afirmou. Ontem, o Exército israelense, que prosseguiu com os preparativos para uma possível ofensiva terrestre, afirmou que permitiu a entrada de caminhões com ajuda humanitária em Gaza. O chamado Quarteto para o Oriente Médio pediu ontem um cessar-fogo imediato em Gaza e no sul de Israel . A Turquia e o Egito lideram outra proposta de trégua, com apoio de governos árabes, que inclui a reabertura das fronteiras de Gaza com Israel, que decretou a região ao redor do território palestino zona militar fechada. Um porta-voz do Hamas disse que uma eventual trégua deve ser acompanhada pelo fim do bloqueio a Gaza. "Não estamos implorando por calma e não há espaço para diálogo sobre calma enquanto a agressão e o bloqueio continuarem", disse Mushir al-Masri. Um membro mascarado do Hamas leu uma declaração que chamou de "Carta da Jihad", dizendo: "O mar de Gaza secará antes que o Hamas se renda."AÇÃO MILITAR A Força Aérea israelense continuou atacando ontem a Faixa de Gaza. Pelo menos 13 palestinos morreram, incluindo duas irmãs de 4 e 11 anos. Segundo o Exército, foram bombardeados túneis clandestinos usados pelo Hamas para contrabandear armas a partir do Egito. Também foram atingidos prédios ministeriais do Hamas e dois campos de treinamento do grupo. Segundo a Inteligência israelense, um terço do arsenal de foguetes do Hamas foi destruído. Mas o grupo ainda teria cerca de 3 mil Kassams e capacidade para disparar 200 foguetes e morteiros por dia. Israel estuda também a convocação de mais 2.500 reservistas para uma possível invasão terrestre de Gaza. Já foram mobilizados 6.700 reservistas e dezenas de tanques estão concentrados ao redor do território palestino."A operação está apenas no primeiro de seus diversos estágios", disse ontem o premiê Ehud Olmert.O Hamas atingiu ontem a maior cidade israelense e a mais distante de Gaza desde o início do conflito. Beersheva, de 250 mil habitantes, foi alvejada por dois foguetes, mas ninguém ficou ferido."Se a ofensiva terminar agora, teremos um cenário semelhante ao da guerra contra o Hezbollah (em 2006). Israel destruiu parte do arsenal inimigo, mas não conseguiu acabar com os ataques, nem quebrar a motivação do Hamas", disse ao Estado o coronel da reserva israelense Yonatan Foghel. "Israel já conseguiu mudar o balanço estratégico. O Hamas sabe que pagará um preço alto para cada foguete que lançar. Mas para acabar com a vontade do grupo de atacar Israel, seriam necessários meses de ação militar."

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