Israel e Jordânia planejam contruir ''Canal da Paz''

Ideia é salvar Mar Morto e abastecer de água a região

Leda Balbino, AMÃ, O Estadao de S.Paulo

25 de maio de 2009 | 00h00

Em uma região onde a escassez de água é vista como potencial causa de futuros confrontos, Jordânia, Israel e Autoridade Palestina planejam desenvolver em conjunto um projeto para salvar o Mar Morto por meio de uma drenagem do Mar Vermelho. Apelidado de "Canal da Paz", o projeto também prevê a construção de uma usina de dessalinização para abastecer com água potável principalmente a Jordânia, um dos dez países mais secos do mundo.Visto como uma tábua de salvação no país árabe, onde o consumo aumentou quase 50% entre 1985 e 2005, o projeto foi descrito recentemente pelo ministro jordaniano de Água e Irrigação, Raed Abu Soud, como "a solução dos problemas de água do país".Dos 850 bilhões de litros que seriam dessalinizados anualmente, a Jordânia ficaria com 570 bilhões - quase 63% de seu consumo atual. O Banco Mundial realiza um estudo de viabilidade do projeto, que deve ser finalizado no fim de 2010."O canal é um projeto regional de cooperação, com o objetivo de aumentar a paz no Oriente Médio, obter água potável e reabilitar o Mar Morto", disse ao Estado Elias Salameh, professor de geologia da Universidade da Jordânia.Como para Israel seria mais fácil dessalinizar as águas do Mediterrâneo, muitos indicam um interesse político dos israelenses no projeto. "Usinas no Mediterrâneo custariam cerca de US$ 800 milhões", disse Dan Zaslavsky, ex-membro da Comissão de Água de Israel. Com o financiamento previsto pelo Banco Mundial, o custo estimado do canal está entre US$ 5 bilhões e US$ 7 bilhões.Mira Edelstein, que trabalha em Tel-Aviv para a organização Amigos da Terra no Oriente Médio, corrobora a opinião de Zaslavsky. "Israel quer passar a imagem de que coopera com Jordânia e a Autoridade Palestina em um projeto de paz", disse.Segundo a ativista, o objetivo da Autoridade Palestina, que controla a Cisjordânia, também é político. "Como os palestinos estão em um território ocupado, querem assegurar perante a comunidade internacional seu direito ao Mar Morto", afirmou.Com 200 quilômetros de extensão, o canal ligaria o Mar Vermelho e o norte da Jordânia e enviaria 950 bilhões de litros de água por ano ao Mar Morto, cujo encolhimento anual de 80 centímetros ameaça o equilíbrio ambiental e o futuro abastecimento local. "Israel, Jordânia e Autoridade Palestina estão perdendo por ano 375 bilhões de litros de água de seus aquíferos para compensar o recuo do Mar Morto", afirmou Salameh.Localizado no ponto mais baixo da Terra, o nível do Mar Morto diminuiu 26 metros desde os anos 60, quando estava a 394 metros abaixo do nível do mar. Segundo o Banco Mundial, as águas estão hoje a 420 metros abaixo do nível do mar. Se esse ritmo for mantido, o lago desaparecerá em 50 anos e prejudicará o setor do turismo.O Mar Morto recebe 1 milhão de visitantes por ano, atraídos pela perspectiva de boiar sem percalços nas águas muito salgadas do lago e obter benefícios dermatológicos com os 28 sais minerais presentes em suas águas e lama. Sua salinidade é dez vezes maior do que a dos oceanos, o que o torna um ambiente hostil para os seres vivos - daí ser chamado de Mar Morto.A exploração comercial das propriedades farmacêuticas e cosméticas do lago é uma das causas para a diminuição das águas. A outra é o desvio das águas que nele desembocam, principalmente dos Rios Jordão e Yarmouk, para agricultura, indústria e abastecimento populacional.RIO JORDÃOCom receio dos impactos ambientais do projeto, Mira Edelstein acredita que o lago poderia ser salvo de forma mais fácil se os países cooperassem para reabilitar o Rio Jordão. "Se fizéssemos isso, consequentemente salvaríamos o Mar Morto. Israel deveria considerar essa opção também como um projeto político e de paz", afirmou. A repórter viajou a convite do Jordan Tourism Board

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