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Israel e Polônia

Netanyahu achou que seria uma boa ideia reunir o Grupo de Visegrado em Israel. Errou.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2019 | 05h00

É difícil apagar a memória de um povo. Podemos até dissolver e limpar a fundo, raspar, queimar, enterrar e expulsar, ela está sempre lá, à espreita. E, quando o céu arde, ela sai da hibernação, salta à frente daquele que a ofendeu. Ela define o registro, especialmente quando esta hora é a de um antigo martírio.

Isto é o que aconteceu tanto ao premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e os líderes dos países que formam o Grupo de Visegrado, bloco informal do Leste Europeu (Polônia, Hungria, República Checa, Eslováquia) que, embora façam parte da União Europeia, gastam o seu tempo criticando-a. Netanyahu disse que seria uma boa ideia reunir o Grupo de Visegrado em Israel. Seria um grande sucesso para ele.

Erro. Não foi uma boa ideia. Foi até mesmo uma ideia deplorável, porque um participante que estava nos bastidores, subitamente, subiu ao palco e apresentou uma raiva terrível. Esse personagem é a memória, aquela da Polônia e, mais precisamente, da Polônia durante a última guerra.

Quem pôs fogo no barril de pólvora? Foi Israel Katz, o novo ministro das Relações Exteriores, que Netanyahu acaba de nomear após dois anos de espera. Foi Netanyahu quem teve a ideia desta cúpula de Visegrado em Jerusalém, para mostrar que Israel está muito próximo dos países do Leste da Europa. Uma boa ideia que, na prática, mostrou-se um fiasco.

Como este fracasso aconteceu? Recentemente designado ministro das Relações Exteriores, Israel Katz pronunciou um discurso que a Polônia não pode suportar. Katz recordou um discurso do ex-primeiro-ministro israelense, Yitzhak Shamir, em 1989, que lembrava da profundidade do antissemitismo na Polônia. 

“Os poloneses engolem o antissemitismo com o leite de sua mãe. Está profundamente enraizado em sua tradição.” E Shamir trouxe uma memória dolorosa. Na aldeia polonesa onde morava com a família, seu pai, que acabara de escapar de um comboio da morte, fora morto por amigos de infância aos quais pedira proteção.

Israel Katz, um homem de direita há muito tempo rotulado como um falcão, tem 63 anos. Ele faz parte de uma geração que é radicalmente hostil à própria ideia de perdão ou reconciliação. O Holocausto foi a identidade deles. “Nós não vamos perdoar, não vamos esquecer”.

Imediatamente, a resposta chega de Varsóvia. O primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, não participará da reunião do Grupo de Visegrado em Jerusalém. Varsóvia explica sua posição. “Certamente, não negamos assassinatos, deportações, denúncias. Em contrapartida, não seria sério dizer que ‘a Polônia colaborou com os nazistas’”. 

A França, sim, colaborou com Hitler por meio do marechal Philippe Pétain. Essa é a diferença para a Polônia. É por isso que a ocupação da Polônia não teve misericórdia: 2 milhões de poloneses e 3 milhões de judeus foram mortos.

Tudo isso acontece pouco antes das eleições israelenses. Netanyahu imaginou este encontro do Grupo de Visegrado em Jerusalém para consolidar a estatura internacional da cidade. No entanto, fracassou. O caso se transformou em confusão: a memória, o tempo e a história saíram de suas profundezas e embaralharam as cartas. Provavelmente, com efeitos sobre a política externa de Israel. Sem contar que algumas balas perdidas devem atingir o Grupo de Visegrado. Serão os chamados “danos colaterais”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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