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Israel e Turquia, juntos

Turquia e Israel conseguirão pôr fim à discórdia que os separa há três anos e retomar as relações num clima mais cordial? Esta é a esperança de Ancara e Tel-Aviv. Mas grandes obstáculos atrapalham seu caminho.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2013 | 02h07

Precisamos voltar alguns anos antes, quando os dois países mantinham boa amizade, preciosa e estranha, pois a Turquia é governada por muçulmanos moderados. A cooperação era abrangente: um intercâmbio comercial intenso, manobras militares conjuntas e utilização do espaço aéreo pelos aviões do Exército israelense.

Mas há três anos, houve uma "colisão". Em maio de 2010 uma flotilha internacional partiu para a Faixa Gaza, território controlado pelos islamistas do movimento Hamas e que é vítima de um horrível bloqueio determinado por Israel.

A flotilha era liderada por um barco turco, o Mavi Marmara. Israel não se deixou intimidar e lançou seus aviões contra a armada, atingindo o navio e matando nove turcos. Em seguida, todas as relações entre os dois países foram congeladas por decisão de Ancara e a cooperação militar cessou totalmente.

Hoje, o desejo é virar a página. Contatos entre autoridades foram retomados. Como os reencontros diplomáticos começaram? O ponto de partida teria sido a visita de Barack Obama a Israel.

Quando Obama estava no aeroporto de Tel-Aviv, de partida para a Jordânia, ele teria telefonado ao primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan. Depois, passou o telefone para o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, que "se desculpou e aceitou indenizar as vítimas", de acordo com um comunicado israelense. É um belo relato. Talvez belo demais. Mas Israel desmentiu a versão de qu teria sido levado a esse acordo por Obama. Sem dúvida, não é do agrado dos israelenses que Obama apareça como o "autor" da façanha.

De qualquer maneira, se podemos falar em melhora do clima, ainda assim restam algumas nuvens. E o problema é exatamente Gaza. O que se imaginava era que o acordo contemplaria a suspensão do bloqueio israelense a Gaza. Ora, para Israel, se essa condição for apresentada por Erdogan, o Estado judeu não tem a intenção de atendê-la.

Durante a visita de Obama a Israel, um grupo de Gaza lançou dois foguetes contra Israel, que reagiu de imediato: fechou o único ponto por onde as mercadorias podem entrar em Gaza. E Yaakov Amidror, conselheiro para assuntos de Segurança Nacional, deixou clara a doutrina israelense: "Se houver calma, o processo que facilitaria a vida dos moradores de Gaza continuará. Se houver tiros, o movimento será mais lento, podendo até ser interrompido".

Com certeza houve avanços. O tempo do silêncio passou, mas, sem dúvida, será necessário ainda um longo período para relações normais entre Israel e a Turquia serem retomadas num clima de confiança.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

Tradução de Terezinha Martino.
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