Israel está cada vez mais isolado

Relatório sobre o ataque à flotilha de Gaza recomenda ao menos a manifestação de pesar

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2011 | 00h00

Eis o que o relatório da ONU sobre o ataque de Israel, no ano passado, ao navio Mavi Marmara, sob bandeira turca, teve a dizer sobre a morte de um cidadão americano de 19 anos que estava a bordo: "Ao menos um dos mortos, Furkan Dogan, foi baleado a curtíssima distância. O sr. Dogan exibia ferimentos no rosto, na parte de trás do crânio, nas costas e na perna esquerda, indicando que ele estaria ferido quando um tiro fatal foi disparado, como foi sugerido por testemunhas." Com essas palavras, o conselho de quatro membros parece levantar a possibilidade de uma execução.

Dogan, nascido no Estado de Nova York, era um aspirante a médico. Pouco interessado em política, havia ganho um sorteio para viajar no barco que rumava para Gaza. O relatório fala sobre ele e outras oito pessoas mortas: "Não foram encontradas evidências para estabelecer que algum dos mortos estivesse com armas letais".

Conheci o pai de Dogan, Ahmet, professor na Universidade Erciyes, em Kayseri, no ano passado em Ancara: seu sofrimento era tão profundo como sua decepção com as evasivas americanas. É difícil imaginar quaisquer outras circunstâncias em que o assassinato em águas internacionais de um cidadão americano por forças de uma potência estrangeira provocasse um silêncio parecido dos EUA.

Autoridades turcas de alto escalão contaram-me que o premiê turco Recep Tayyip Erdogan havia abordado o caso de Dogan com o presidente Barack Obama. É claro, nenhum presidente americano, e certamente nenhum presidente em primeiro mandato, diria o que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse: "O ataque israelense à flotilha de Gaza foi completamente inaceitável". Apesar de haver um cidadão americano morto, suscitar essas questões sobre Israel é politicamente inaceitável. Assim reza o beco sem saída forrado de tabus da política externa americana com respeito a Israel, uma política externa que é, em grande medida, uma política doméstica.

O relatório Palmer, vazado para The New York Times na semana passada, não expressa uma posição unânime, e os membros israelenses e turcos do conselho incluíram notas de discordância. Minha tradução aproximada dessa conclusão seria essa mensagem a Israel: vocês tinham o direito de fazê-lo, mas o que fizeram foi muito além da conta e simplesmente estúpido.

Descobri que o bloqueio naval de Israel a Gaza é legal e adequado - "uma medida de segurança legítima" - por causa dos persistentes disparos pelo Hamas de foguetes do território contra Israel; a flotilha agiu imprudentemente ao tentar furar o bloqueio; os motivos dos organizadores de flotilhas suscitavam sérias dúvidas; e os comandos israelenses enfrentaram uma "resistência organizada e violenta".

Mas ele também chamou o ataque - a 72 milhas náuticas de terra - de "uma resposta rápida demais e pesada demais". A flotilha, diz o relatório, estava longe de representar uma ameaça militar imediata a Israel. Uma advertência prévia inequívoca deveria ter sido feita. A decisão de abordagem "foi excessiva e irracional". Ele critica Israel por "não fornecer uma explicação adequada" às nove mortes ou explicar "por que foi usada uma força capaz de produzir níveis tão altos de ferimentos". O conselho ficou consternado com a incapacidade de Israel de fornecer detalhes sobre as mortes. Ele chama a política de Israel sobre acesso por terra a Gaza de "insustentável".

No geral, o conselho considera que Israel devia emitir "uma declaração apropriada de pesar" e "indenizar as vítimas mortas e feridas e suas famílias". Sim, Israel, cada vez mais isolado, deveria fazer exatamente isso. Um pedido de desculpa é o caminho certo e o caminho mais inteligente. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.