Israel libertará espião nuclear após 18 anos

Mordechai Vanunu, conhecido como "o espião nuclear" em Israel, será libertado nesta quarta-feira, depois de 18 anos de prisão. Apesar da libertação, o governo de Israel impôs uma série de restrições a Vanunu, como a impossibilidade de ter um passaporte e de se aproximar de aeroportos e portos ou de conversar com estrangeiros sem autorização. Vanunu, de 49 anos, trabalhou como técnico no Centro de Pesquisas Nucleares de Dimona, de 1976 a 1985.Movido por uma ideologia pacifista de esquerda, Vanunu, que era estudante de filosofia na Universidade Ben Gurion, começou a sentir o que ele definiu como "dores de consciência por estar trabalhado em um lugar que contradizia totalmente os seus princípios ideológicos".FotografiasDurante o último ano de trabalho no local mais secreto do país, ele começou a fotografar as instalações e a registrar dados sobre as atividades realizadas em Dimona. Em 1986, Vanunu entregou ao jornalista Peter Hounam, do jornal britânico The Sunday Times, as informações que havia colhido em Dimona.No dia 5 de outubro do mesmo ano, o The Sunday Times publicou com grande destaque os segredos nucleares israelenses, quebrando, assim, o principal tabu de Israel, que vem mantendo, há dezenas de anos, uma política de ambigüidade em relação ao seu potencial nuclear.Poucos dias depois da publicação, Vanunu foi preso pelos serviços de inteligência de Israel (Mossad) em Roma e levado a Israel. Acusado de espionagem e traição, ele foi condenado a 18 anos de prisão, 11 deles passados em total isolamento, em prisão solitária.PacifistasPara a maioria dos israelenses, Mordechai Vanunu é um traidor que causou um grande dano ao Estado. Para uma pequena minoria, de grupos pacifistas e organizações de direitos humanos, Vanunu é um herói, um idealista que prestou um grande serviço à sociedade israelense, revelando informações que o público tem o direito de saber.Yael Lotan, escritora e jornalista israelense de 68 anos, faz parte dessa minoria. Lotan é uma das fundadoras do comitê pela libertação de Mordechai Vanunu e por um Oriente Médio livre de armas nucleares, biológicas e químicas. Em uma conversa com a BBC Brasil, a escritora defendeu o "espião nuclear" e analisou a razão do tratamento severo que ele recebeu das autoridades israelenses."O que amedronta o poder em Israel é a consciência de Vanunu""O que amedronta o poder em Israel não são os segredos de Vanunu, mas sim sua consciência", disse Lotan. "É sabido que o pior pesadelo daqueles que perderam a consciência é a pessoa que manteve a dela". De acordo com Yael Lotan, "em todos os países que possuem armamentos nucleares (Estados Unidos, Rússia, China, Grã-Bretanha e França), o público foi informado da presença dessas armas, e só em Israel esse tema sempre foi mantido em segredo".Lotan expressou sua preocupação com o potencial nuclear de Israel e disse: "As autoridades não forneceram as informações sobre as armas que existem aqui, e essas armas são perigosas para nós, os cidadãos do país, para nossos vizinhos e para o mundo inteiro".Yael Lotan também expressou admiração por Vanunu, que ela considera um herói. "De todas as pessoas que trabalharam em Dimona, só Vanunu teve a coragem de publicar as informações. Para mim, ele é um herói, exatamente como o americano Daniel Ellsberg, que, no auge da guerra do Vietnã, revelou os documentos do Pentágono e assim contribuiu para pôr fim àquela guerra".Lotan também manifestou sua revolta com a dura sentença à qual Vanunu foi condenado e disse que "Ellsberg não foi preso mesmo por um dia". De acordo com a escritora, depois da libertação de Vanunu, o comitê vai continuar lutando "por um Oriente Médio livre de armas nucleares, químicas e biológicas".

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.