Israel mantém cerco a Arafat apesar da ONU

Israel desafiou nesta terça-feira uma resolução do Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU) para encerrar o cerco de seis dias ao quartel-general do líder palestino Yasser Arafat em Ramallah, na Cisjordânia, e matou nove palestinos durante um ataque contra supostas fábricas de munições e outros alvos na Faixa de Gaza. O cerco imposto a Arafat pelo Estado judeu foi criticado hoje pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, que nos últimos meses mostrava-se compreensivo com as ações militares israelenses. A operação foi criticada também por muitos israelenses em meio a sinais de que a popularidade de Arafat voltou a crescer entre os palestinos.Esporádicas manifestações em favor do líder palestino voltaram a ocorrer nesta terça-feira, apesar dos toques de recolher impostos por Israel nas principais cidades da Cisjordânia, uma ação que ocorre há três meses, com breves suspensões, e aparentemente teve sucesso apenas parcial com relação ao objetivo declarado de conter atentados dentro de Israel.Abstenção dos EUACom a abstenção dos Estados Unidos, o Conselho de Segurança exigiu que Israel encerre a ofensiva, "inclusive a destruição das infra-estruturas civil e de segurança palestinas". A resolução pede ainda que a Autoridade Palestina "garanta que os responsáveis por atos terroristas sejam levados à justiça".Em Washington, Bush declarou: "Temos de acabar com o sofrimento. Eu penso que as ações que os israelenses tomaram não ajudam no estabelecimento e desenvolvimento das instituições necessárias para a criação de um Estado palestino." Sem rendiçãoO ministro da Defesa de Israel, Binyamin Ben-Eliezer, disse que "nenhuma resolução e nenhuma pessoa pode tirar de nós o direito de defender nossas casas, nosso povo". Gideon Saar, secretário de gabinete do primeiro-ministro Ariel Sharon, garantiu que o cerco continuará até que as cerca de 200 pessoas encurraladas dentro do QG de Arafat se entreguem, alegando que algumas deles são terroristas e serão julgados. Aparentemente cogitando o eventual uso da força, Saar prosseguiu: "Não creio que isto vá terminar com a rendição deles, mas isto tem de acabar com sua captura."Os palestinos receberam com satisfação a resolução da ONU, após recentes esforços similares terem sido vetados pelos EUA. Arafat divulgou um comunicado aplaudindo a decisão. O ministro Saeb Erekat disse que a medida deve ser posta em prática "porque Israel é o campeão dos países que minam as resoluções do Conselho de Segurança, não implementando-as". CelularO impasse prosseguiu durante o dia em Ramallah. As linhas telefônicas do QG de Arafat foram cortadas, denunciaram palestinos. Agora, Arafat e os assessores podem utilizar apenas telefones celulares para se comunicarem. O Exército de Israel afirmou desconhecer o corte das linhas telefônicas. Os soldados israelenses cercam o local com tanques e não permitem a entrada de visitante, mas o Exército amenizou as restrições à presença de jornalistas no resto de Ramallah, permitindo que estes entram e saiam da cidade. Os moradores de Ramallah são submetidos há seis dias consecutivos a um toque de recolher. Porém, protestos esporádicos continuavam acontecendo. Dezenas de palestinos enfrentaram soldados israelenses na Praça Manara, onde quatro manifestantes foram mortos pelo Exército do Estado judeu no início desta semana. Há apenas duas semanas Arafat sofrera a pior derrota política, quando o Parlamento palestino forçou a renúncia de todo o gabinete de ministros, num reflexo do crescente descontentamento popular com o governo após dois anos de conflito com Israel.Antes da última quinta-feira, quando Israel cercou o QG de Arafat em retaliação a um atentado que deixou sete mortos em Tel Aviv, os palestinos já discutiam abertamente formas de limitar o poder do líder. Menos poder a ArafatOutro sinal de que essa tendência começou a mudar após o cerco a Arafat foi o ataque de franco-atiradores contra a casa de Nabil Amr. Ninguém ficou ferido. Amr é um ex-assessor de Arafat que mudou de lado e passou a criticá-lo. Ele lidera uma frente que pede a criação do cargo de primeiro-ministro da Autoridade Palestina para reduzir o poder de Arafat.Nas primeiras horas de hoje, dezenas de tanques israelenses invadiram a Cidade de Gaza, trocaram tiros com militantes palestinos e mataram nove pessoas, inclusive seis civis. O Exército de Israel informou que os soldados explodiram 13 metalúrgicas suspeitas de produzir armas e demoliram a casa de um militante do Hamas acusado de matar cinco jovens israelenses num ataque a tiros contra um assentamento judaico na Faixa de Gaza no início deste ano.Palestinos garantem que esta foi a maior operação já realizada em Gaza durante os dois anos do atual conflito. Cerca de 60 tanques e veículos blindados israelenses foram utilizados na ofensiva. Em ambos os lados fontes especulavam que a ação seria o prelúdio de um ataque ainda maior contra Gaza, onde se abriga o grupo islâmico Hamas, apontado por Sharon como próximo alvo das operações militares do Exército.

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