Israel nega abusos em Gaza e encerra inquérito

Para Justiça Militar, relatos de soldados sobre crimes contra civis palestinos são fictícios; ONGs denunciam ''manobra para livrar Exército de culpa''

AP E REUTERS, O Estadao de S.Paulo

31 de março de 2009 | 00h00

A Justiça Militar israelense decidiu ontem arquivar definitivamente o inquérito que conduzia sobre supostos abusos cometidos por soldados de Israel contra civis palestinos durante as três semanas de ofensiva na Faixa de Gaza, entre dezembro e janeiro. A justificativa, segundo o chefe do Judiciário do Exército, o general Avichai Mendelblit, é que as denúncias "têm por base rumores e carecem de respaldo".Em 15 de fevereiro, militares que integraram a chamada Operação Chumbo Grosso relataram, durante uma palestra em uma academia militar, violações contra civis - que acabaram vazando para a imprensa. Entre os abusos mais chocantes, estão histórias de um atirador de elite que disparou numa idosa e de tiros contra outra mulher que teria se aproximado de uma unidade israelense. Há ainda o relato do assassinato, também por um atirador de elite, de uma mãe e dois filhos que não teriam obedecido ao comando dos militares e, ao invés de virar à direita, viraram à esquerda.Com a divulgação dos testemunhos pelo jornal Haaretz, ONGs israelenses exigiram a abertura de um inquérito independente. Mas a investigação ficou a cargo do Exército."A velocidade com que o inquérito foi fechado levanta, imediatamente, suspeitas de que se tratou de uma mera manobra do Exército para livrar-se da culpa pelas atividades ilegais", afirmaram organizações de defesa dos direitos humanos em um comunicado conjunto.Segundo a Justiça, os detetives interrogaram o soldado que havia narrado na palestra o episódio do disparo contra uma idosa e o militar afirmou que "só repetiu boatos que havia escutado". Sobre a mulher que foi baleada por se aproximar de tropas israelenses, a investigação concluiu que ela era suspeita de ser uma mulher-bomba e foi repetidamente advertida com tiros.O soldado que contou a história do assassinato da mãe com os filhos "nunca testemunhou um evento desse tipo", também informaram os detetives militares. "Foi concluído que, neste caso, abriu-se fogo em outra direção, contra dois homens que não tinham relação nenhuma com esses civis."O general Mendelblit criticou o que chamou de "falta de cuidado" dos militares que falaram na palestra. "Será difícil calcular o prejuízo que eles causaram à imagem das nossas Forças Armadas em Israel e no mundo", disse.O governo israelense questiona as cifras de vítimas da operação em Gaza. Fontes palestinas falam em 1.417 mortes, sendo 926 civis. Mas, para Israel, morreram 1.116 palestinos, entre eles 297 civis.

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