Israel nega entrada a africanos em meio a nova polêmica sobre refugiados

Grupo de 20 cidadãos da Eritreia está há cinco dias entre as cercas que separam Israel do Egito, em condições de calor extremo.

Guila Flint, BBC

04 de setembro de 2012 | 18h52

Um grupo de 20 cidadãos da Eritreia se encontra há cinco dias entre as cercas que separam Israel do Egito, em condições de calor extremo, pedindo para entrar no território israelense. Soldados israelenses, que foram instruídos a vigiar os africanos, vazaram a informação à imprensa local.

Segundo os soldados, a ordem que receberam de seus superiores foi de não permitir a entrada dos africanos e de fornecer-lhes água.

Os refugiados, entre eles duas mulheres e uma criança, não recebem comida há cinco dias, e a água, segundo os soldados, "é pouca".

O episódio é o mais recente na polêmica questão dos refugiados em Israel.

Organizações de direitos humanos exigem que as autoridades israelenses permitam a entrada dos africanos e possibilitem que eles apresentem um pedido formal de asilo político.

"De acordo com a lei internacional, Israel tem a obrigação de verificar a situação dessas pessoas e não pode deixá-las passando fome e sede no deserto", disse o diretor da ONG israelense Médicos pelos Direitos Humanos, Ran Cohen, à BBC Brasil.

De acordo com Cohen, as convenções internacionais sobre a proteção de refugiados, das quais Israel é signatário, determinam que não se pode devolver pessoas que fugiram de seus países caso estejam sujeitas a perigo de vida se retornarem.

A Eritreia é considerada um dos países com o maior índice de violações de direitos humanos no mundo, no qual os jovens são obrigados a prestar trabalho forçado para o Exército por tempo ilimitado e aqueles que tentam fugir muitas vezes são executados sumariamente.

"Exigimos que o estado físico dessas pessoas seja imediatamente examinado, que eles recebam o atendimento necessário e que as autoridades verifiquem se trata-se de refugiados políticos", disse Cohen.

Cerca

O advogado Oded Feller, da Associação de Direitos Civis, disse ao site de noticias Ynet que a atitude das autoridades israelenses ao impedir a entrada dos africanos é "uma vergonha".

"Israel tem o direito de construir uma cerca, mas a cerca não libera as autoridades de suas obrigações. Quando há pessoas suplicando junto à cerca, deve-se verificar se estão correndo perigo de vida, e se esse é o caso, deve-se permitir a entrada delas. É proibido deixar essas pessoas passarem fome e sede, isso é vergonhoso", afirmou Feller.

Segundo o porta-voz do Exército israelense, "nessa região específica existe uma cerca contínua, que foi erguida recentemente para impedir a entrada ilegal em Israel. Do lado oeste da cerca se encontra, nos últimos dias, um grupo de estrangeiros cuja entrada em Israel é impedida por essa cerca. Por razões humanitárias as forças do Exército fornecem água, através da cerca, aos estrangeiros".

Para conter a entrada de imigrantes africanos no país, Israel construiu a cerca ao longo da fronteira com o Egito.

Desde a conclusão da cerca o número de africanos que conseguem entrar no país diminuiu significativamente.

De acordo com o ministério do Interior, no último mês de agosto apenas 199 africanos, principalmente do Sudão e da Eritreia, conseguiram entrar em Israel.

Já em agosto de 2011, antes da construção da cerca, 2 mil africanos entraram no país.

Nos últimos cinco anos cerca de 60 mil imigrantes africanos entraram em Israel através do deserto do Sinai.

O ministro do Interior de Israel, Eli Ishai, declarou que nos próximos meses pretende "prender todos os infiltrados africanos".

Israel construiu um grande campo de detenção para os imigrantes ilegais, com capacidade de abrigar 20 mil pessoas, no sul do país.

De acordo com a ONG Médicos pelos Direitos Humanos, cerca de 2 mil imigrantes africanos já estão presos no campo de detenção de Saharonim. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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