Israel nem se lembra de palestinos

Por décadas, criou-se a ideia de que o conflito com os árabes obscurecia diferenças internas; hoje, isso parece obsoleto

ETHAN , BRONNER, THE NEW YORK TIMES, É EX-CHEFE DA SUCURSAL , DO NYT EM JERUSALÉM, ETHAN , BRONNER, THE NEW YORK TIMES, É EX-CHEFE DA SUCURSAL , DO NYT EM JERUSALÉM, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2013 | 02h06

Durante anos, a sabedoria convencional sustentou que enquanto Israel enfrentasse o desafio externo da hostilidade árabe - principalmente palestina -, jamais resolveria suas divisões internas. A esquerda usou isso algumas vezes como argumento: precisamos fazer a paz com os palestinos para podermos deixar a casa em ordem. Redigir uma Constituição e definir o papel da religião.

Outros viram a ameaça quase como uma tábua de salvação para manter o país unido: as diferenças entre israelenses (religiosos ou seculares, asquenazes ou sefarditas) são tão profundas que se a sociedade voltar sua atenção para dentro, ela pode se esfacelar.

De volta a Tel-Aviv para uma visita recente, um ano após encerrar meu período de diretor de sucursal em Jerusalém, fiquei chocado pelo quanto essa ideia parece obsoleta. De um casamento luxuoso a numerosas conversas com vários israelenses, saí com uma impressão muito distinta. Poucos falaram dos palestinos e do mundo árabe, apesar do alvoroço e dos renovados esforços de paz do secretário de Estado americano, John Kerry, que esteve visitando a região nos últimos dias.

Em vez de dar atenção ao que há muito é visto como seu principal desafio - dividir a terra com outra nação -, os israelenses estão em grande parte ignorando a questão, insistindo que o problema é momentaneamente insolúvel e menos significativo do que pensa o mundo. Não podemos resolvê-lo, dizem muitos, mas podemos administrá-lo.

O casamento foi num local próximo do Aeroporto Ben Gurion, onde foi erguido um conjunto de requintados salões para eventos nos últimos sete anos. As centenas de pessoas no salão provinham de um amplo leque de recortes políticos, geográficos e religiosos - das minissaias ao recato ultraortodoxo. Colonos mal vestidos misturavam-se com metrossexuais de Tel-Aviv em toda sorte de indumentária. Todos estavam celebrando. Ninguém, especialmente o rabino ortodoxo que presidiu a cerimônia, mencionou que o jovem casal já estava vivendo junto havia mais de três anos. Alguns falaram comigo de política. Nenhum mencionou os palestinos.

De certo modo, os judeus israelenses parecem mais felizes e mais unidos do que no passado, como se a opção por não resolver seu desafio mais difícil tivesse aberto um espaço para shalom bayit - a paz conjugal. Sim, todas aquelas tensões internas ainda existem, mas a crença comum de que não há solução para o maior problema criou um tipo curioso de solidariedade.

Aliás, Israel nunca foi tão rico, tão seguro, tão culturalmente produtivo e tão dinâmico. O terrorismo está em declínio. Mas a ocupação oprime na porta ao lado sem que se dê muita atenção para suas consequências.

Apesar de a burguesia secular, representada pelo Partido Yesh Atid, de Yair Lapid, ter forjado uma aliança inesperada com colonos da Cisjordânia representados pelo partido Habayit Hayehudi, de Naftali Bennett, com o intuito de reduzir o poder político dos ultraortodoxos, o alarme sobre o fracasso no trato do problema palestino cresceu num lugar surpreendente - entre alguns dos antigos medalhões da direita sionista.

Um dia desses, num café de Jerusalém, Dan Meridor, o ex-ministro do Likud e herdeiro da aristocracia sionista de direita, não parava de falar dos palestinos. "É uma espada de Dâmocles pendendo sobre nossas cabeças", dizia ele. "Estamos vivendo de ilusões. Temos de fazer de tudo que pudermos para aumentar a separação entre nós e os palestinos para que a ideia de Estado único desapareça. Mas não estamos fazendo nada."

A esquerda israelense continua lá, é claro, mas em bolsões cada vez mais insignificantes. Lapid, o astro em ascensão da política israelense, é um ex-apresentador de TV que concorda que algo tem de ser feito sobre os palestinos. Mas não oferece nada mais específico que esperar que Kerry os pressione a voltar à mesa de negociações sob condições que eles há muito rejeitaram. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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