Israel perderá a oportunidade?

O novo governo de coalizão de Israel, formado com a menor maioria possível em seu Parlamento, provavelmente significa que o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu agirá com cautela ainda maior do que no passado. Isso é uma tragédia, pois Israel está diante de uma oportunidade estratégica extraordinária.

Fareed Zakaria, do Washington Post, O Estado de S. Paulo

11 de maio de 2015 | 03h00

À primeira vista, poderia parecer absurdo falar esperançosamente de oportunidades em Israel. O Oriente Médio está em polvorosa, o radicalismo islâmico está invadindo regiões antes estáveis, Hezbollah e Hamas estão ativos, e o perigo nuclear iraniano persiste. Some-se a isso o repulsivo antissemitismo que está em ascensão no mundo – tolerado e encorajado em tantas comunidades muçulmanas – e este parece um momento muito perigoso para o Estado judeu. Foi o que Netanyahu sugeriu quando explicou a Andrea Mitchell da NBC por que havia recuado de seu apoio a um Estado palestino. “O que mudou é a realidade”, disse ele. A realidade mudou, mas é precios ler mais do que as manchetes. Num exame mais detalhado, pode-se ver que ela mudou dramaticamente a favor de Israel.

Primeiro, é preciso constatar o desaparecimento da ameaça árabe. Desde seu primeiro dia de existência, Israel enfrentou o perigo de extinção por exércitos árabes. Foi contra essa ameaça que o Estado judeu planejou, se armou e treinou durante boa parte de sua vida nacional.

Hoje, ela não existe. Os exércitos dos principais inimigos estratégicos de Israel – Iraque, Síria, Egito – estão desorganizados, ao passo que as Forças Armadas israelenses se tornaram a superpotência da região, num patamar acima de todas as demais. Mais importante, Egito, Arábia Saudita e os Estados menores do Golfo agora se encontram numa aliança tácita com Israel contra o Irã. No general egípcio Abdel Fatah al-Sisi, Israel talvez tenha encontrado o presidente mais anti-Hamas (e tacitamente pró-Israel) da história do Egito.

Para compreender a profundidade dessa virada estratégica, considere-se o seguinte: vem sendo noticiado que os árabes estão pensando na criação de uma força armada conjunta. Nas últimas vezes que isso ocorreu, em 1948 e 1967, seu propósito era varrer Israel do mapa. Hoje, seu alvo é combater o principal inimigo de Israel, o Irã, razão pela qual, segundo observa um comentarista do Haaretz, “Não só Israel não está alarmado como está de fato extasiado”.

Segundo, os principais inimigos de Israel estão sob uma pressão maior do que nunca. O Irã e o Hezbollah comprometeram-se a defender o regime de Bashar Assad na Síria, um desafio desanimador no longo prazo, pois Assad representa os alauitas, que constituem menos de 15% do país.

As reportagens variam sobre qual tem sido o custo desse apoio para Teerã – The Economist mencionou a cifra de US$ 15 bilhões, que seria o equivalente a um ano da totalidade do orçamento de Defesa do Irã. O Hezbollah está atolado na Síria, e centenas de seus combatentes morreram ali. O conflito sírio provavelmente continuará a ocupar e drenar o Irã e o Hezbollah durante anos, um problema devastador com a queda do preço do petróleo e, com ela, das receitas do Irã.

Observando os conflitos na Síria, Iraque, Iêmen e Líbia, só se pode pensar que os principais inimigos de Israel – extremistas xiitas e sunitas – estão se matando uns aos outros.

Há o programa nuclear do Irã, é claro, embora ele esteja significativamente desacelerado neste momento. Seja qual for o desfecho das negociações, vale lembrar que Israel tem uma poderosa capacidade de dissuasão nuclear, segundo alguns relatos de até 200 ogivas nucleares, muitas delas em submarinos. Além disso, ele construiu um muro que reduziu os ataques terroristas a Israel virtualmente a zero, e seu sistema de defesa “domo de ferro” frustrou a ameaça de foguetes do Hamas e do Hezbollah.

De mais a mais, a economia de Israel está em franco progresso, ultrapassando as outras na região. Enquanto suas ondas de inovação tecnológica e produtividade continuam, Israel se vê cortejado por países da China à Índia que, no passado, até relutaram em reconhecer publicamente suas relações com o governo israelense.

Portanto, embora enfrente perigos reais, Israel hoje dispõe de políticas para frustrar, dissuadir e se defender deles com força e eficácia. O perigo para o qual ele não tem defesa é o fato de que continua a ter o controle da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, terras com 4,5 milhões de pessoas que não têm nem um país nem direito a voto. O sentimento da direita israelense que hoje governa o país parece ser o de que, se o problema palestino for ignorado, ele de alguma forma se dissolverá. Mas ele não se dissolverá, e a tragédia é que este é o momento, com tantos astros alinhados em favor de Israel, em que uma liderança esclarecida poderia garantir Israel permanentemente como um Estado democrático, judeu, e fazer a paz com seus vizinhos. É uma oportunidade de ouro, e está olhando de frente o primeiro-ministro Netanyahu. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 


*É COLUNISTA E ESCRITOR

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