REUTERS/Stringer
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Mossad é acusado de assassinar cientista sírio que projetava foguetes

Aziz Asbar era um dos cientistas mais importantes da Síria, e morreu em uma explosão de um carro-bomba, aparentemente plantado pelo serviço secreto israelense

David M. Halbfinger and Ronen Bergman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 18h20

Aziz Asbar era um dos cientistas mais importantes da Síria. No sábado, 4, ele foi morto pela explosão de um carro-bomba, aparentemente plantado pelo Mossad, o serviço secreto israelense. Foi pelo menos a quarta vez em três anos que Israel assassinou um engenheiro projetista de armamentos em solo estrangeiro - uma tentativa israelense de refrear a expansão da influência iraniana na região.

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Israel não reivindicou responsabilidade. Isso nunca acontece. Mas o Mossad tem uma longa história de assassinar cientistas desenvolvendo armas e vistos como uma ameaça. Desde 2007, foram ao menos seis assassinatos conduzidos pelo Mossad.

Especialista em projetar foguetes, Asbar estava empenhado em criar um arsenal de mísseis teleguiados de alta precisão que poderiam ser lançados com pontaria perfeita sobre cidades israelenses, a centenas de quilômetros.

Asbar tinha acesso irrestrito aos escalões mais altos dos governos sírio e iraniano, e sua própria escolta de segurança. Chefiava uma unidade altamente secreta de desenvolvimento de armas chamada Setor 4. Trabalhava duro para reconstruir uma fábrica de armamentos subterrânea que substituiria uma instalação anterior destruída por Israel em 2017.

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O jornal The New York Times publicou nesta terça-feira, 7, o relato da operação ultrassecreta feito por um alto oficial de uma agência de inteligência do Oriente Médio, que ficou a par da operação israelense, e que falou sob condição de anonimato.

O atentado ao cientista aconteceu na noite de sábado em Masssiafe, onde o departamento de pesquisas militares da Síria mantém algumas de suas mais importantes instalações para desenvolvimento de armas. Rapidamente a Síria e o Hezbollah (o grupo islâmico baseado no Líbano que é aliado do presidente Bashar Assad na guerra civil síria) acusaram Israel pela morte de Asbar.

As acusações tinham fundamento neste caso. O Mossad vinha seguindo Asbar há muito tempo. Os israelenses acreditavam que o cientista era o chefe do Setor 4, no Centro de Pesquisas de Estudos Científicos da Síria. Ele teria acesso irrestrito ao palácio presidencial em Damasco, e vinha colaborando com o major-general Qasem Soleimani, comandante das forças especiais Quds do Irã, além de outras autoridades iranianas, para iniciar a produção dos mísseis teleguiados de alta precisão na Síria. Os mísseis seriam obtidos alterando-se foguetes do modelo SM600 Tishreen.

Asbar também trabalhava numa fábrica de combustível sólido para mísseis e foguetes, uma alternativa mais segura ao combustível no estado líquido. Um oficial da aliança sírio-iraniana, também falando sob anonimato por estar proibido de dar entrevistas a jornalistas ocidentais, afirmou acreditar que Israel queria matar Asbar devido a seu papel de destaque no programa de mísseis da Síria mesmo antes de a guerra civil estourar em 2011.

Segundo a lei israelense, só o primeiro-ministro pode autorizar uma operação de assassinato, que é conhecida pelo eufemismo "tratamento negativo" dentro do Mossad. Porta-vozes do premiê Binyamin Netanyahu e do ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman, não responderam ao New York Times sobre o ataque.

Lieberman, no entanto, no início do dia descartou sugestões na mídia síria e libanesa de que Israel estava por trás da explosão, que também matou o motorista de Asbar. "Todos os dias no Oriente Médio há centenas de explosões e acertos de contas", disse ele ao Canal 2 News de Israel. “Toda vez, eles tentam colocar a culpa em nós. Então, não vamos levar isso muito a sério ”.

Como um dos diretores do centro de pesquisa sírio, Asbar trabalhou durante anos no programa de produção de armas químicas de Assad. Também coordenava atividades do Irã e do Hezbollah em solo sírio.

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Israel também quer afastar da Síria as forças do Irã e do Hezbollah, numa iniciativa que começou depois que os dois entraram no país para ajudar Assad a combater os rebeldes. Os israelenses temem que quando a guerra civil acabar as tropas dos dois exércitos se voltem contra Israel. Autoridades do país temem que o Irã tente criar uma presença permanente na Síria, estabelecendo um novo front na fronteira norte israelense.

Nos últimos meses, a força aérea de Israel atacou na Síria diversos alvos que vê como uma ameaça estratégica. Entre eles estão armazéns de armas para o Irã e o Hezbollah; comboios que transportam armas do Irã para a Síria e o Hezbollah; bases para as milícias xiitas do Iraque, Paquistão e Afeganistão, e para o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana; e bases aéreas sírias usadas para abrigar veículos aéreos iranianos.

Em setembro passado, Israel destruiu a maior parte da fábrica síria de armas em Massiafe, onde Asbar era um dos principais chefes. Mas, nos últimos meses, os iranianos começaram a reconstruí-la, desta vez em instalações subterrâneas. As máquinas usadas na produção de armas, enquanto isso, ficaram guardadas num depósito. Entretanto, boa parte delas foi destruída num ataque israelense no dia 23 de julho.

O centro de pesquisas sírio está, já faz tempo, no radar das agências de inteligência ocidentais. É alvo de sanções financeiras dos EUA e da França. Antes da guerra civil, o centro operava instalações de produção e estocagem de armas químicas, muitas das quais já foram destruídas ou abandonadas. Chegou a empregar dez mil pessoas na produção de mísseis e armas nucleares, químicas e biológicas.

ASSASSINATOS RECORRENTES

No final da década de 1950, um grupo de cientistas e engenheiros alemães que haviam trabalhado no programa de foguetes de Hitler começou a construir mísseis para o Egito, provocando pânico em Israel e ajudando na retirada de David Ben-Gurion da política. O Mossad tentou várias vezes matar os cientistas antes de recrutar agentes dentro do projeto que ajudaram a interrompê-lo.

No final dos anos 1970, agentes do Mossad mataram a facadas um cientista egípcio e envenenaram dois iraquianos que estavam trabalhando em um projeto nuclear para Saddam Hussein. Quando ficou claro que o projeto atrasou, mas não descarrilou, Israel destruiu o reator nuclear do Iraque em 1981. E em 1990, dois agentes do Mossad em Bruxelas mataram Gerald Bull, um engenheiro canadense que prometeu construir um super canhão para o Iraque. poderia disparar enormes conchas em Tel Aviv.

Nos últimos anos, o Irã tem sido o alvo mais freqüente do Mossad: em 2007, uma explosão numa linha de produção de ogivas no centro de pesquisa matou 15 sírios e também iranianos. A Síria concluiu que o ataque foi obra de sabotadores israelenses.

Desde então, o Mossad assassinou seis iranianos, a maioria deles cientistas envolvidos em programas nucleares e de mísseis do Irã em seu caminho para o trabalho pela manhã. / THE NEW YORK TIMES

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