Israel precisa mudar seu discurso

O país não conseguirá romper com a força os parâmetros político e moral pelos quais o mundo julga suas ações

Daniel Kurtzer, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2010 | 00h00

Um dos vários aspectos contraditórios do fiasco do bloqueio da flotilha, no dia 31, um dos mais curiosos é o tom monótono da resposta de Israel. Horas depois do assalto à frota de navios que se dirigia à Faixa de Gaza para levar ajuda humanitária, enquanto mortos e feridos ainda estavam sendo retirados de cena, o vice-chanceler de Israel disparou um ataque verbal que se tornou a linha oficial da nação: os organizadores da flotilha são simpatizantes dos terroristas, emboscaram as forças israelenses e são responsáveis pelos fatos que se seguiram.

O premiê Binyamin Netanyahu limitou-se a incluir uma sentença que lamentava as vítimas civis em um comunicado, no qual atacava os críticos de Israel e defendia os atos do país.

Por que, mesmo para seus amigos, o discurso de Israel soou tão estridente? Onde estão a tristeza e a decepção que Israel deveria sentir por uma operação militar fracassada? O filósofo francês Bernard-Henri Levy destacou com raiva a tendência de alguns líderes israelenses de achar que "estão sozinhos no mundo e serão sempre culpados, e de agir em conformidade" com esta convicção.

Mas se escondendo atrás de uma autojustificativa, Israel confunde a questão. E agora o júri da opinião pública mundial, que inclui amigos e inimigos, deixou de dar-lhe ouvidos. Na ONU, os oradores condenaram unanimemente a ação de Israel, e os próprios EUA uniram sua voz a uma dura condenação.

De fato, Israel tem enfrentado repetidas ameaças à sua segurança e existência, uma realidade que se refletiu numa frase que ouvi frequentemente nos anos em que fui embaixador americano no país, no início desta década: Israel se deita com as lembranças do Holocausto e acorda com o conflito árabe-israelense. Neste contexto, o poderio militar do país foi considerado uma resposta necessária. Por sua vez, o discurso de Israel retratava o país como um Davi enfrentando um Golias árabe.

Embora a guerra de 1967 tenha mudado esta realidade, Israel nunca atualizou seu discurso. A patente superioridade militar e os laços cada vez mais profundos com os EUA ofereceram um grau de segurança que o país não conhecera antes. O presidente do Egito, Anwar Sadat, foi o primeiro líder árabe a admitir a nova realidade estratégica, e em 1979, declarou a paz com Israel.

Mas enquanto o tema ultrapassado de Davi e Golias persistia nas mentes de muitos israelenses, em outros segmentos da população começava a se fixar um novo discurso religioso-nacional sobre a colonização e a preservação de Eretz Israel como um todo. Muito embora Israel se retirasse do Sinai a fim de concluir a paz com o Egito - decisão que esvaziou totalmente a alegação de que os assentamentos eram necessários por razões de segurança - ativistas como Ariel Sharon continuaram sustentando que aumentavam a segurança.

Por algum tempo, as condições permitiram que este novo discurso vingasse: a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) mostrou-se muito ativa e passou a atacar Israel a partir da Jordânia, Líbano, e na ONU, e a adotar táticas moderadas com a finalidade de levar Israel a mostrar-se complacente.

Mas logo esta realidade também começou a mudar. Em 1988, a OLP decidiu apoiar oficialmente uma solução de dois Estados para o conflito e dialogar com os EUA. Em 1991, os países árabes participaram de negociações multilaterais com Israel sobre a água, meio ambiente, desenvolvimento econômico e segurança regional. Em 1994, a Jordânia declarou a paz, acabando com a justificativa da segurança nos assentamentos israelenses da Cisjordânia. E em 2002 os países árabes anunciaram uma "iniciativa de paz árabe" propondo a paz e a segurança em troca da retirada de Israel das terras tomadas na guerra de 1967. Mas a intifada palestina freou estes avanços, abrindo uma década de violência, e foi ressuscitada a temática de Israel dos anos 50: a história de Davi e Golias.

Cheguei a Israel como embaixador dos EUA em 2001 e muitas vezes discuti estas questões com o então premiê, Ariel Sharon, em geral no contexto das escolhas feitas por Israel para tratar da questão do terrorismo. Sharon acreditava que uma enérgica e constante resposta militar bastaria para persuadir os palestinos a acabar com a intifada. Para ele, sua responsabilidade era proteger os israelenses e o fechamento de Gaza destinava-se a impedir novos ataques. Quaisquer que fossem as consequências de suas ações, Israel não pediria desculpas por se defender.

Netanyahu repetiria o refrão quase uma década mais tarde. Mas os países soberanos podem cometer erros e pedem desculpas. Eles não dependem apenas do poderio militar e de uma retórica insistente para defender o seu povo, mas também da diplomacia e dos valores da empatia e do entendimento. Os países soberanos podem ser fortes promovendo ao mesmo tempo um discurso que destaca a preocupação com as consequências de suas políticas.

Na esteira do fiasco da operação contra a flotilha, não são apenas as táticas militares de Israel e seu bloqueio de Gaza que precisam de um reexame. Seu discurso também. A inclusão de uma dose de empatia seria um bom ponto de partida. Israel não conseguirá romper somente com a força militar e a retórica agressiva os dois parâmetros político e moral pelos quais o mundo julga suas ações. Mas poderá se justificar melhor temperando a força com a diplomacia, preocupando-se com o sofrimento humano dos palestinos e elaborando um discurso impregnado pelos padrões morais e éticos com os quais os israelenses julgam seu comportamento. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É EX-EMBAIXADOR AMERICANO EM ISRAEL E NO EGITO

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