Israel prepara 'arsenal' contra pacto palestino

Tel-Aviv diz que não negociará com 'terroristas' e ameaça bloquear repasses à Cisjordânia

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2011 | 00h00

O governo israelense ameaçou ontem reagir com um "vasto arsenal de medidas" contra o acordo entre o grupo fundamentalista islâmico Hamas e a liderança moderada palestina do Fatah, anunciado na quarta-feira.

Dentre as represálias citadas pelo ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, está o bloqueio de US$ 800 milhões de impostos que Israel repassa anualmente à Autoridade Palestina, os quais representam um terço de sua receita. Outra retaliação seria impor a dirigentes palestinos as humilhantes e demoradas revistas e averiguações a que os palestinos comuns estão submetidos nos pontos de controle entre a Cisjordânia e Israel.

"Com esse acordo, uma linha vermelha foi cruzada", declarou Lieberman à Rádio Israel. "Sempre deixamos claro que não negociaremos com uma organização terrorista", continuou, referindo-se ao Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, mas aceita a possibilidade de um "cessar-fogo de longo prazo", caso o país se retire dos territórios ocupados. "Temos de mostrar que nossas palavras não eram ameaças vazias."

O acordo, mediado pelo Egito, cria um "governo de união nacional" composto pelo Hamas, que controla a Faixa de Gaza, e o Fatah, que governa a Cisjordânia. O Hamas expulsou o Fatah de Gaza numa breve guerra civil em 2007. O acordo prevê também a realização de eleições presidenciais e parlamentares nos dois territórios no ano que vem. As últimas eleições, em 2006, foram vencidas pelo Hamas.

O chanceler é conhecido como um político de linha dura, mas a reação do presidente Shimon Peres, mais moderado, demonstra que o acordo com o Hamas mexe com os nervos dos israelenses, já assustados com a queda, em fevereiro, do ex-presidente Hosni Mubarak, que representava um anteparo ao fundamentalismo no vizinho Egito, e com a rebelião na Síria, cujo ditador Bashar Assad não é aliado de Israel, mas mantinha a estabilidade do país, com o qual também faz fronteira.

"O acordo é um erro fatal que impedirá o estabelecimento de um Estado palestino e sabotará as chances de paz e estabilidade na região", afirmou Peres. Na quarta-feira, no calor do anúncio, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, também linha dura, já havia reagido: "A Autoridade Palestina tem de escolher entre a paz com Israel e com o Hamas. Não há possibilidade de paz com ambos."

No outro extremo dos interesses regionais, o governo iraniano, que apoia o Hamas, celebrou o entendimento. "Esse é o primeiro triunfo do grande povo egípcio no que se refere à Palestina depois dos acontecimentos no Egito", disse o chanceler do Irã, Ali Akbar Salehi.

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